“Era uma vez um rapaz que queria ser escritor. E quando teve idade para estudar na universidade, matriculou-se em filologia para aprender bem o ofício. Não demorou muito para descobrir que havia se equivocado. O que estava estudando não o ajudava a escrever e seus professores e colegas não pareciam a classe de pessoas que alguma vez tivesse feito isso. Terminou sua faculdade, e com boa nota, mas só porque seus pais haviam feito um grande esforço para lhe pagar os estudos e ele era um homem ou, melhor dizendo, um rapaz responsável”. Esse parágrafo tem tudo em comum comigo. E, para os que me conhecem pessoalmente, vão até achar que poderia ter sido eu mesmo quem o escreveu, mas, apesar de ter imensa semelhança, o autor dessa “curiosa” e familiar história é espanhol.
Esse curioso romance lançado em 2005 de José Luis Saorín sobre uma grande editora, a VMG, que tem como critério “matar o romance como também todos os gêneros literários, criando uma fábrica de livros escritos por ‘ghost-writers’, na qual os autores são somente pequenas engrenagens na cadeia de produção e onde não se fala mais em literatura e de bons leitores, mas somente em produtos e clientes” através de uns programas de EAC (Escrita Assistida por Computadores) – furor entre as editoras. Dramático isso? Pois é. E acho que estamos mesmo caminhando para esse fim, pois a supracitada categoria de escritores, pelo menos os de verdade, às vezes, são mesmo profetas do caos e meras peças de engrenagens.
Confesso que tive, a princípio, muita dificuldade para entender o primeiro capítulo do livro de Saorín. Talvez pela expectativa de encontrar logo nas primeiras linhas uma crítica venenosa contra essas editoras cada vez mais mercenárias, mas o protagonista dessa história, o doído do Ramón, é muito parecido comigo – pelo menos com relação à sua personalidade e às maluquices (“A gente podia colocar uma balança nas livrarias e cada um pesava seu livro. Cada autor teria um preço por quilo de livro e a gente poderia oferecer várias opções de tipos de letras. Assim, quem quisesse economizar compraria livros com letra menor, que pesariam menos” – numa das suas muitas frases irônicas).
Ramón é o tipo do cara que eu me identifico de cara – um ser atípico, com 25 anos (mas não sei bem se foi eu que não prestei atenção, pois no meio da história ele aparece com 42 anos – acho que foi um erro de continuidade) e logo no comecinho da trama aparece numa confusão “retada” com uma máquina de comprar bilhetes para uma viagem de metrô. E como a tal máquina não estava funcionando direito (não tinha troco), ele teve que comprar as moedas de uma desconhecida (a Laura – vilã ou mocinha da história? – não ficou muito claro) muito desconfiada por cinqüenta euros – uma idiotice, como o próprio personagem admitiu mais tarde. Em crise com o seu chefe de departamento, o ganancioso e mercenário Luvic (um cara bem mais comum do que o livro tenta mostrar (ele poderia trabalhar num dos colégios que eu já dei aulas) – que acha que “comer” secretárias é a melhor coisa dessa área e que para ser diretor de uma grande e respeitada editora as únicas coisas necessárias eram: saber ganhar dinheiro, comer bucetas e passar por cima dos outros).
A história de Ramón é uma ácida, delirante e hilariante reflexão sobre algumas tendências da indústria cultural (“A maquinaria produz livros à custa dos cadáveres dos escritores”) e os tributos que a identidade pessoal deve pagar para sobreviver, no caso, até mudar de identidade para tentar fazer sucesso (pois Ramón usa o codinome de Nomar Wallace, autor de novelas água com açúcar – coisa muito comum nesses tempos de Big Bhother). O livro discute a literatura não como obra, mas como mercadoria descartável. “Os investimentos da indústria do lazer nos últimos cinqüenta anos tinham sido feitos no cinema, na televisão, na internet, nos videogames ou na música. Em qualquer campo menos nos livros”, disse Saorín num dos capítulos.
Infelizmente as editoras preferem continuar com o “crème de la crème” das suas listinhas de autores consagrados do que investir em novas cabeças, o que no livro o autor tenta enfatizar com muita ironia: “Sempre tenho a mesma sensação quando noto que as rodas já não encostam no asfalto da pista”. E, justamente nesse meio que Ramón, solteirão desencanado, inventa, além do codinome, uma esposa imaginária de nome Marta para aparentar ser um cara sério e respeitável.
O autor faz questão de deixar claro que os escritores são uma espécie em extinção e que, enquanto restar algum, as editoras vão continuar a utilizá-lo, embora sob condições próprias de produção, pois se não entrarem na maquinaria de produção e marketing, o mercado esquecerá deles (“Você viu os músicos de sempre? Estão tremendo diante da chegada de meninos desconhecidos que vendem dez vezes mais que eles. São produzidos ao ritmo de dez a cada seis meses. O autor solitário está morto”).
Narrado em 1ª pessoa, cheio de frases irônicas e críticas ferozes à industria cultural, o livro é uma tentativa de alertar para o que muitos já sabem: para um livro ser considerado importante tem de ter passado pelo crivo de alguns mercenários capazes de tudo para tirar o proveito.
Encontrei muitos erros de concordância no texto, como também palavras incompletas ou escritas errado (coisas da edição). Não gostei muito dos últimos capítulos – muito premeditado – mas aquela idéia de mais um pseudônimo utilizando o próprio nome do autor, achei fantástico. Também gostei das várias referências dentro da história (coisa que eu sempre usei e sempre fui criticado por causa disso): usar o final trágico de Romeu e Julieta de Shakespeare para simular a morte de Nomar Wallace, citar Júlio César e Brutus, Sansão e Dalila, as xícaras do Piu-Pui e do Pateta, Marlon Brando em O Poderoso Chefão, os bancos das Ilhas Cayman, Darth Vader de Guerras nas Estrelas e outros foi fantástico. Além, é claro, que eu não podia deixar de comentar: muito legal o nome da editora concorrente, editora Livros são Amores. Portanto, você tem que ler esse livro de José Luis Saorín. Uma excelente obra que mostra o quanto o trabalho de muitos autores é avaliado com os seus prós e os seus contras; e também a maneira como a indústria está matando e enterrando a si mesma, como “frangos que são vendidos aos pedaços” – nas palavras do autor. (A CURIOSA HISTÓRIA DO EDITOR PARTIDO AO MEIO NA ERA DOS ROBÔS ESCRITORES de José Luis Saorín, 242 págs. Rio de Janeiro, 2005 – Relume Dumara).