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7月26日 CensuraTexto de Jabor sofre censura polÍticaPor Elenilson Nascimento
A imagem do Congresso Nacional, nestes últimos meses, congelou no espetáculo lamentável de degradação encenada pela comissão perfidamente chamada “de Ética”. Muitas foram as crises do Legislativo brasileiro, mas poucas com a característica tão marcante de levar junto a própria instituição para o fundo do poço. E, do lado de cá da miserabilidade comum a todos os brasileiros, eu desisti de acreditar nesses senhores parlamentares, aliás, nunca fui de acreditar nesse segundo mandato do Lulálá. Do caso do Renan Calheiros – suas contas mal explicadas, seus bois super-faturados, o recurso ao amigo lobista para acertar as contas (com dinheiro público) com a concubina com quem até teve uma filha – ao presidente Lula que nunca sabe de nada e que nunca viu nada, soma-se a isso tudo o fato de Brasília ter se tornado um verdadeiro antro de raposas velhas e de cobras criadas. Lula sempre tenta encobrir os crimes de sua quadrilha apelando para pretensos “crimes” de gestões anteriores, como barragem de CPIs, votos comprados, Caixa 2 sem provas e outros subterfúgios. Ele e os petistas se julgam donos de uma metaética, uma supramoral que os absolveria de tudo e de todos e, por isso mesmo, Lula se utiliza de omissão, mentiras e meias verdades para responder às acusações de mensalões e tudo de podre em seu governo. Para justificar a supressão e a passividade diante da Bolívia e do prejuízo de um bilhão e meio de dólares nas instalações da Petrobras, Lula chegou até a criticar a violência burra do Bush (mas quando a águia americana esteve aqui o Lula ficou com o rabinho entre as pernas) para se absolver na política de “companheirismo” com o Evo Morales. E os sanguessugas do penúltimo escândalo? Todos se safaram. Isso é o Brasil, onde acidente de avião vira estatística na imensa lista de coisas inacreditáveis que acontece nesse país do faz-de-conta. E, agora, tudo indica que tem cheiro de mais ditadura no ar. Comentário da jornalista Dora Kramer no Estadão: "A decisão do TSE que determinou a retirada do comentário de Arnaldo Jabor do site da CBN a pedido do presidente Lula até pode ter amparo na legislação eleitoral, mas fere o preceito constitucional da liberdade de imprensa e de expressão, configurando-se, portanto, um ato de censura". Em outro trecho: "Jabor faz parte de uma lista de profissionais tidos pelo presidente Lula como desafetos e, por isso, passíveis de retaliação à medida que se apresentem as oportunidades". Porém, uma consideração: a questão de concordar ou discordar do Jabor não faz parte desse meu intento neste comentário. Este não consiste em uma defesa gratuita do que foi dito pelo comentarista e cineasta. Independente de concordar, ou não, com o que ele diz, trata-se de defender o direito de ele poder dizer – que é o direito de todos, pelo menos na teoria. Não quero tratar da concordância ou da discordância, mas tão somente do princípio democrático que deve ser constitutivo de uma sociedade aberta, apesar de tudo. P.S. E antes que eu também seja retaliado, não deixem de ler, reler e passem o texto do Jabor adiante!
A VERDADE ESTÁ NA CARA, MAS NÃO SE IMPÕE Por Arnaldo Jabor
O que foi que nos aconteceu? No Brasil, estamos diante de acontecimentos inexplicáveis, ou melhor, "explicáveis" demais. Toda a verdade já foi descoberta, todos os crimes provados, todas as mentiras percebidas. Tudo já aconteceu e nada acontece. Os culpados estão catalogados, fichados, e nada rola. A verdade está na cara, mas a verdade não se impõe. Isto é uma situação inédita na História brasileira. Claro que a mentira sempre foi a base do sistema político, infiltrada no labirinto das oligarquias, claro que não esquecemos a supressão, a proibição da verdade durante a ditadura, mas nunca a verdade foi tão límpida à nossa frente e, no entanto, tão inútil, impotente, desfigurada. Os fatos reais: com a eleição de Lula, uma quadrilha se enfiou no governo e desviou bilhões de dinheiro público para tomar o Estado e ficar no poder 20 anos. Os culpados são todos conhecidos, tudo está decifrado, os cheques assinados, as contas no estrangeiro, os tapes, as provas irrefutáveis, mas o governo psicopata de Lula nega e ignora tudo. Questionado ou flagrado, o psicopata não se responsabiliza por suas ações. Sempre se acha inocente ou vítima do mundo, do qual tem de se vingar. O outro não existe para ele e não sente nem remorso nem vergonha do que faz. Mente compulsivamente, acreditando na própria mentira, para conseguir poder. Este governo é psicopata!!! Seus membros riem da verdade, viram-lhe as costas passam-lhe a mão nas nádegas. A verdade se encolhe, humilhada, num canto. E o pior é que o Lula, amparado em sua imagem de "povo", consegue transformar a Razão em vilã, as provas contra ele em acusações "falsas", sua condição de cúmplice e comandante em "vítima". E a população ignorante engole tudo. Como é possível isso? Simples: o Judiciário paralítico entoca todos os crimes na Fortaleza da lentidão e da impunidade. Só daqui a dois anos serão julgados os indiciados – nos comunica o STF. Os delitos são esquecidos, empacotados, prescrevem. A Lei protege os crimes e regulamenta a própria desmoralização. Jornalistas e formadores de opinião sentem-se inúteis, pois a indignação ficou supérflua. O que dizemos não se escreve, o que escrevemos não se finca, tudo quebra diante do poder da mentira desse governo. Sei que este é um artigo óbvio, repetitivo, inútil, mas tem de ser escrito... Está havendo uma desmoralização do pensamento. Deprimo-me: "Denunciar para quê, se indignar com quê? Fazer o quê?". A existência dessa estirpe de mentirosos está dissolvendo a nossa língua. Este neocinismo está a desmoralizar as palavras, os raciocínios. A língua portuguesa, os textos nos jornais, nos blogs, na TV, rádio, tudo fica ridículo diante da ditadura do lulo-petismo. A cada cassado perdoado, a cada negação do óbvio, a cada testemunha, muda, aumenta a sensação de que as idéias não correspondem mais aos fatos! Pior: que os fatos não são nada - só valem as versões, as manipulações. No último ano, tivemos um único momento de verdade, louca, operística, grotesca, mas maravilhosa, quando o Roberto Jefferson abriu a cortina do país e deixou-nos ver os intestinos de nossa política. Depois surgiram dois grandes documentos históricos: o relatório da CPI dos Correios e o parecer do procurador-geral da República. São verdades cristalinas, com sol a Pino. E, no entanto, chegam a ter um sabor quase de "gafe". Lulo-Petistas clamam: "Como é que a Procuradoria Geral, nomeada pelo Lula, tem o desplante de ser tão clara! Como que o Osmar Serraglio pode ser tão explícito, e como o Delcídio Amaral não mentiu em nome do PT? Como ousaram ser honestos?". Sempre que a verdade eclode, reagem. Quando um juiz condena rápido, é chamado de "exibicionista". Quando apareceu aquela grana toda no Maranhão (lembram, filhinhos?), a família Sarney reagiu ofendida com a falta de "finesse" do governo de FH, que não teve a delicadeza de avisar que a polícia estava chegando... Mas agora é diferente. As palavras estão sendo esvaziadas de sentido. Assim como o stalinismo apagava fotos, reescrevia textos para contestar seus crimes, o governo do Lula está criando uma língua nova, uma neo-língua empobrecedora da ciência política, uma língua esquemática, dualista, maniqueísta, nos preparando para o futuro político simplista que está se consolidando no horizonte. Toda a complexidade rica do país será transformada em uma massa de palavras de ordem, de preconceitos ideológicos movidos a dualismos e oposições, como tendem a fazer o populismo e o simplismo. Lula será eleito por uma oposição mecânica entre ricos e pobres, dividindo o país em "a favor" do povo e "contra", recauchutando significados que não dão mais conta da circularidade do mundo atual. Teremos o "sim" e o "não", teremos a depressão da razão de um lado e a psicopatia política de outro, teremos a volta da oposição Mundo x Brasil, nacional x internacional e um voluntarismo que legitima o governo de um Lula 2 e um Garotinho depois. Alguns otimistas dizem: "Não... este maremoto de mentiras nos dará uma fome de Verdades!". fonte: enviado por e-mail.
7月17日 20. "O PERFUME" de Patrick SüskindEu já tinha esse livro desde 2001, mas nunca tive curiosidade de fazer uma leitura cuidadosa pois sempre tinha outros livros na frente. O Perfume - A História de um Assassino (1985) foi considerado o livro da década de 80 na Alemanha. E só depois que alguém apareceu aqui em casa com o filme é que tive vontade de ler e acabei devorando (várias vezes) a obra desse alemão careca de 57 anos – com nome de comida japonesa – que atualmente vive na Alemanha, raramente dá entrevistas ou aparece em público e prefere levar uma vida isolada. E antes mesmo de abrir o livro, já me intrigava com seu título. Qual o rosto escondido por trás da máscara do protagonista? (ou seria melhor dizer antagonista?) Por que O Perfume como título de livro? Qual o significado desta alegoria toda? Segundo a lenda, até o Kurt Cobain era fã desse livro. Alguns críticos de música dizem que o falecido vocalista do Nirvana usou trechos desse livro de Patrick Süskind como inspiração, na época da composição do disco “In Utero” (1993), tanto que a música "Scentless Appretince" foi baseada nesse livro. O romance escrito por Süskind conta a história de Jean-Baptiste, um homem que possui um olfato extraordinariamente apurado mas que não possui cheiro próprio. O autor fez um trabalho memorável ao descrever a Paris do século XVIII que é o cenário que nasce Jean-Baptiste, abandonado por sua própria mãe em meio à tripas de peixes e de ratos. Quando acham seu corpo levam-no para um orfanato, aonde o menino cresce e todos que tem contato com ele acham-no repulsivo de uma forma estranha. O que não sabem é que o corpo de Jean-Baptiste não tem um aroma, uma distinção que é tão sutil que ninguém pode apontar diretamente. A falta de cheiro de Jean-Baptiste pode ser vista mais tarde como uma representante de sua falta de moral em um mundo no qual o amoral e o ético lutavam para achar um denominador comum. Durante toda a sua vida Jean-Baptiste teve vários acidentes, doenças e chagas, trabalhou como aprendiz de curtidor (que eu nem sabia o que era) e depois como aprendiz de perfumista na loja de Baldini e, graças às suas características, enquanto foi aprendiz de perfumista aprendeu várias técnicas para a criação de um perfume. Um dia, Jean-Baptiste encontra uma linda jovem de 12 anos, com um perfume totalmente diferente de todos os outros milhares de perfumes que ele guardava na memória, e acabará por matá-la por assidente, com as suas próprias mãos, de tanto desejar apoderar-se do seu odor. Mas, esta jovem é apenas uma das muitas jovens que o protagonista acaba por matar (acho que 26 no total), em busca do perfume perfeito. O autor é capaz de evocar diferentes emoções no leitor, desde simpatia, curiosidade, repulsa e ódio, que mostra um profundo autismo ao aprender cheiros diferentes à sua volta como a maioria das crianças aprende o alfabeto, ou contam números. Ele passa seus dias identificando e organizando os cheiros em seu mundo particular – parece um autista. Sua obsessão com cheiros é tanta e tão absoluta, que, então com 14 anos ele apresenta a si mesmo a um proeminente perfumista (Baldini) que o ensina a arte anciã de misturar óleos, dissecar e isolar aromas, e reduzir flores e ervas à seus óleos essenciais. A ação divide-se entre o mundo dos perfumes que serve para encobrir o mundo dos fedores, dos crimes e da hipocrisia que caracterizam a cidade de Paris no século XVIII – muito parecida com o que atualmente vivemos no Brasil. O livro, até pouco tempo considerado inadaptável para a linguagem cinematográfica, foi transformado em filme no ano passado (2006) pelo também alemão Tom Tykwer (de Corra, Lola, Corra). Segundo vários sites de cinema, o próprio Süskind negociou os direitos de filmagem com o produtor. O filme contou com um elenco de celebridades, tais como Dustin Hoffman e Alan Rickman, de belas mulheres, de uma bela fotografia e de um roteiro maravilhoso. Jean-Baptiste foi interpretado pelo desconhecido Ben Whishaw. O orçamento da produção extrapolou o valor de 50 milhões de euros, segundo informações contidas no site da Deustche Welle, mas valeu a pena: o filme ficou maravilhoso. O livro de Süskind é sui generis: meio horror, meio suspense, meio ficção histórica, meio erótico, meio repulsivo, meio romance, meio melancólico. Ao mesmo tempo que oferece muitos insights na mente do criminoso insano, também especula sobre o papel que o senso comum tem em nossas vidas. Quando os críticos e leitores sentiram pela primeira vez o aroma de O Perfume em 1985, ele prontamente tornou-se um best-seller internacional sendo traduzido para 37 línguas diferentes. Contudo, O Perfume é, sem dúvida, um romance muito estranho. Mais inquietante ainda é o fato de Jean-Baptiste ser desprovido de odor corporal, o que leva a sociedade a encará-lo com um misto de indiferença e horror. Curioso é a maneira como o autor utilizou para descrever alguns personagens: o tosco Druot, que cheira a esperma e suor; as mulheres plácidas, feitas de mel escuro; Madame Arnulfi, a viúva cheia de vitalidade; e as virgens mortas de membros carnudos, lisos e firmes. Todo este mundo irreal e de certa forma sobrenatural acaba por ser um pretexto que o autor utiliza engenhosamente a fim de explorar as paixões básicas que movem a humanidade: o erotismo, o poder, a necessidade de afirmação e a procura de si próprio, retratada aqui na busca do perfume ideal. E embora esta seja a história de um assassino, o próprio subtítulo o indica, os crimes acabam por diluir-se, como que desculpados pela pureza das intenções destituídas de qualquer tipo de moralidade. É por este motivo que o fim deixa um travo amargo, já que não se retiram conclusões e só a dúvida fica no ar. Apesar de muita coisa do livro ter sido dispensada na versão cinematográfica, O Perfume é um livro que deve ser degustado de mente aberta, deixando de lado preconceitos e juízos de valor, porque só assim se poderá apreender a beleza de caráter mórbido que se desprende das páginas e a crítica subjacente: o quanto somos frágeis e dependentes do nosso eu animal. Aquela parte onde o autor explica que o Senhor Richis desejava ardentemente a sua própria filha, Laure, a ruiva, que desejava “deitar-se junto a ela, sobre ela, dentro dela, com toda a sua concupiscência e todo o seu desejo. E ele ficava a suar, e o os membros tremiam, enquanto sufocava em si esse horrendo desejo e se curvava na direção dela, para acordá-la em um casto beijo paternal”, é de deixar os puritanos de cabelos em pé. No final da história, Jean-Baptiste volta a Paris e é partido aos bocados e comido por pessoas devido ao efeito do perfume que tinha derramado por todo o corpo: um final trágico para o protagonista. E qual o significado desta morte horrível? Pode-se ter a falsa impressão de que o autor queira afirmar que os idealistas são consumidos pelas massas ou pela podridão que o sistema produz. Mas as últimas linhas do texto nos faz pensar em algo diferente: “...seus corações estavam bem leves(...) . Pela primeira vez , haviam feito algo por amor” (“O PERFUME - A História de um Assassino” de Patrick Süskind, traduzido por Flávio R. Kothe, 255 pág. 1985 - Editora Record) 7月9日 EntrevistaYES, NÓS TEMOS JIRO TAKAHASHI!!! Jiro Takahashi é de Duartina, uma pequena cidade do interior de São Paulo, tem 58 anos, 3 filhas e 5 netos, é professor de Literatura e disciplinas correlatas, como Leitura e Produção de Textos, Estilística no Centro Universitário Ibero-Americano, no curso de Letras. É também tradutor e interprete desde 1979, com algumas interrupções por conta do trabalho editorial no Rio de Janeiro e em Londres. Estudou Direito e Letras, foi o primeiro editor da Editora Ática e atuou como gerente editorial da Ediouro, com passagens pelas editoras Abril, Nova Fronteira, Estação Liberdade e Editora do Brasil. Jiro – Oi, Elenilson, é uma questão complexa qualquer uma que envolva um trabalho no sentido de se criar um gosto de ler. O gosto de ler envolve os campos cognitivo, afetivo e uma série de fatores pessoais, familiares, econômicos e políticos, embora não pareça em termos imediatos para o menino diante da possibilidade ou não de pegar um livro. Porém, vou me ater mais a questões mais práticas para tentar ser mais sucinto. Em primeiro lugar, posso ser muito questionado, mas não acho que Dostoievski nem Nelson Rodrigues tenham escrito pensando nos leitores de dez ou onze anos de idade (nem para os da época deles, quando os meninos eram mais "homens mais novos" ou "homens pequenos", muito antes das modernas teorias psicológicas que passaram a entender melhor a criança). Em segundo lugar, uma série como a “Vaga-Lume” não pretendia concorrer nem com os clássicos brasileiros, que eram editados na “Série Bom Livro”. Os títulos da “Vaga-Lume”, como “O caso da borboleta Atíria” ou “A ilha perdida”, eram destinados à iniciação de leitura, para aqueles que, na época, provavelmente estariam pegando seus primeiros livros de forma autônoma. Na época, a literatura infantil propriamente dita não tinha a força de hoje, e era quase toda inserida dentro dos livros de leitura para o antigo primeiro grau (de 1ª a 4ª série). Embora eu veja com certa reserva, há uma teoria de incentivo à leitura – a "teoria do degrau" defendida entre nós pelo saudoso José Paulo Paes, grande editor e poeta – que prega que um menino começa lendo livros de estrutura narrativa mais simples e pouco a pouco passa a exigir sozinho outros de estrutura mais sofisticada. Segundo essa teoria, dificilmente um menino começaria direto a ler um Machado de Assis ou Flaubert. Além da estrutura narrativa, ainda há o problema dos referênciais e do repertório de vivência do leitor. Uma curiosidade popular. Outro dia, o Reinaldo Gianechini estava num dos programas matutinos e, perguntado como ele está conseguindo se preparar para ser ator, entender os textos e decorá-los, ele lembrou que normalmente ele lê com muita freqüência, coisa que adquiriu, segundo ele, graças à “Série Vaga-Lume”. Embora ele não seja o modelo de um grande ator, fiquei muito feliz com esse depoimento. Até porque no Brasil não é comum o leitor lembrar-se da editora e da série que está lendo, nem entre adultos. Então, quando vejo pessoas lembrarem-se de séries como a “Vaga-Lume”, “Para Gostar de Ler” e “Série Bom Livro”, fico pensando se elas não teriam cumprido, mesmo que não de forma brilhante (o que é complicadíssimo em um país que valoriza tão pouco a arte e a cultura), sua missão. E era para ela chegar às famílias e escolas a um preço nunca superior a da revista Veja e sempre com textos integrais, além de estimular o surgimento de novos escritores e o resgate de velhos escritores sem grande espaço na época. Naturalmente, um outro aspecto que “o gosto de ler” carrega consigo é que gosto varia demais e dificilmente haverá um consenso pacífico se era boa literatura ou não. Em História, talvez devamos esperar mais uns 40 ou 50 anos para um julgamento mais neutro e com dados sobre o crescimento do mercado de adultos nos próximos anos. Sucintamente (mas nem tanto, como gostaria), é mais ou menos isso o que penso, passados já muitos anos dessas edições (embora elas ainda continuem, com relativo sucesso para seus mais de 30 anos). Elenilson – Discordo nesse ponto com você. Pelo que vejo por aí, não acho que esses livros tenham formado legiões de leitores. A proporção contínua a mesma, no fim das contas, com a diferença que os não-leitores antigos, de antes desses "paradidáticos", pelo menos saíam da escola sabendo o que era o básico da boa literatura nacional. Se for para não ler, que seja o melhor, e não o que, com boa vontade, se pode chamar de descartável. Houve algum momento na história da educação nacional em que um grupo de “gênios” decidiu que tinham que facilitar as coisas para os alunos. Não acredito nisso. A melhor prova disso é que, há algum tempo, peguei um desses livrinhos de um aluno. À medida que ia lendo o livro, tinha a sensação de que o conhecia de algum lugar. Só perto de terminar é que lembrei que tinha lido aquele livro na oitava série. Esqueci completamente. Mas não esqueci meu Brás Cubas, defunto autor; ou da boneca Emília do sítio; ou da Dona Flor do Largo Dois de Julho. Jiro – Ainda sobre a questão de uma coleção formar ou não formar leitores é complicada porque ela não está resolvida. Se estivesse resolvida, teríamos a prova de qual foi o caminho que deu certo. Gosto muito de ver jovens espernearem quanto a esta questão, com argumentos sensíveis e idealistas do Elenilson. É preciso sempre termos professores, escritores, amigos, que pensem assim. Em país com mais dinheiro circulando no meio cultural, não ficaríamos restritos à escola e ao meio editorial como salvadores do problema da falta de leitura. Uma experiência como a “Big Read”, patrocinada pela BBC, na Inglaterra, nunca será aceita infelizmente por nenhum canal brasileiro de televisão. No meu comentário, apresentei apenas uma teoria, a “do degrau”, defendida pelos saudosos José Paulo Paes e meu antigo patrão e amigo, Anderson F. Dias, fundador da Ática. Preciso deixar claro que não compartilho dessa teoria. Há outras duas conhecidas, a “do filtro” e a “do hiato”. Aposto mais numa mescla dessas duas. Mas, feliz ou infelizmente, um país anda para frente ou para trás com as escolhas que vão se acertando entre os que mandam e os que aceitam ser mandados. Os que quiserem estar fora dessa relação devem lutar por uma outra forma de relacionamento econômico, político, social e cultural. Acho que muitos entendem o que estou querendo dizer. Quer resolver uma questão de felicidade humana no sentido de florescimento harmonioso de tudo o que o ser humano tem de potencial (solidariedade, conhecimento aplicado para uma vida melhor, em harmonia, em segurança, sem fome, sem sede (principalmente de cerveja, rs), com prazer cultural e social (e claro, sexual), tudo isso dentro de um sistema econômico e político em que nada disso conta? Eu não acredito. Mas não é por não acreditar que não possamos fazer algo para minorar os problemas. No meu ponto de vista, ler é uma prerrogativa básica de ser humano. Mesmo que leia um péssimo livro. No mínimo, você pode conversar com uma pessoa que leia, qualquer livro que seja. UM DOS PROBLEMAS MAIS SÉRIOS É QUE HÁ MUITOS EDUCADORES QUE NÃO LÊEM E ALGUNS CHEGAM A DETESTAR. Por mais teoria que tenham, não é possível passar algo que detestem para frente. Mesmo gostando, como é o meu caso, é tão difícil passar esse gosto, essa importância, para os amigos, para os alunos. Imagine então detestando... Enfim, uma história ainda sem final feliz. Elenilson – Uma vez você me sugeriu ler Saramago. Pois bem. Li o “Evangelho segundo J. C.”, “Ensaio sobre cegueira”, “Ensaio sobre lucidez”; e o último livro “O ano da morte de Ricardo Reis” está sendo muito enfadonho. Gosto da maneira que o Saramago escreve, mas detesto essa unanimidade por todos os lados com relação à sua escrita. Parece haver certa antipatia ideológica. Estou gostando muito mais do Lobo Antunes. Li outro dia na internet que os dois são inimigos declarados. O que você acha dessas diatribes mútuas inúteis? Para você quem seria o melhor escritor português, Saramago ou Lobo Antunes? Jiro – Sou apenas um leitor regular de Saramago e Lobo Antunes. O “Memorial do convento” ajudou de cara a fazer estourar o Saramago entre nós. “Os cus de Judas” assustaram de imediato os hipócritas de plantão entre nós. Demorou para o Lobo Antunes estourar aqui. Hoje são dois autores de grande público, considerando-se a língua em que escrevem. Naturalmente o Prêmio Nobel também pesa nessa "unanimidade" a que você se refere. USANDO GROSSEIRAMENTE A CATEGORIZAÇÃO PARCIAL DE EZRA POUND, TALVEZ SARAMAGO ESTEJA MAIS PRÓXIMO DA CATEGORIA DE "MESTRE" ENQUANTO LOBO ANTUNES, MAIS PRÓXIMO DA DE "INVENTOR". Por isso, difícil de confrontá-los. Vejo muito isso em discussão de colegas em torno do texto contido de Machado contra o texto aos borbotões de Alencar. Como não sou escritor, tenho a sorte "mineira" (e o azar, claro) de não ter de optar por um caminho, o de Saramago ou o de Lobo Antunes, nas minhas criações. Mas não deixa de ser curioso tentar fazer uma votação, mesmo na base do "gosto mais e pronto", entre os dois, para ver o que o povo pensa a respeito. EU, LEITOR MEDÍOCRE, VOU LENDO OS DOIS. Elenilson – Uma vez um estudante da cidade de São Paulo, me mandou um e-mail muito atípico: queria muito conversar comigo – quase desesperado e, por sugestão do próprio pai, advogado, tinha procurado e achado meu endereço pelo Orkut. Assunto era o meu livro de contos “Diálogos Inesperados...” (que até hoje você não me falou absolutamente nada), objeto de estudo em seu colégio. Havia, no entanto, um problema sério – que o tal rapaz foi logo confessando no terceiro e cruel parágrafo. Como ele não gostava de ler (“Pô, além de ser muito chato eu não tenho tempo”) e a prova sobre o dito livro era na próxima semana (“Ainda tenho que treinar para o campeonato de futebol da escola”), ele ainda me pede ajuda (“Meu pai me mata se eu tomar pau”). Então, ele, o coitado, precisava de um resuminho dos meus contos (“Não precisa ser muito grande”). Esse não é um caso isolado. Por exemplo, aprendi na escola que antes de P e B vem sempre um M; mas até hoje não aprendi a razão. (A quem interessar possa: P e B são bilabiais; a função do M é preparar a boca para esses dois fonemas – copiei da gramática). Assim como eu, milhões saem da escola até sabendo algumas coisas, mas geralmente com um entendimento muito superficial das coisas. A impressão que eu tenho é a de que os educadores esqueceram de uma coisa simples: é melhor ser analfabeto em Eça de Queiroz que analfabeto em “sei-lá-qual-o-seu-nome”. C O M E N T A. Jiro – Um comentário difícil de ser feito. Há vários modos de se conceber um analfabeto. Muitos que se julgam assim não o são. Acabam assumindo porque os outros, aparentemente mais sabidos, assim os rotulam. O analfabeto que se diz assim e que tentou ler Machado e acha que não entendeu talvez não deva ser considerado assim. Às vezes, por falta de repertório livresco, ou de sintonia com o texto, ou de concentração possível ou estímulo suficiente no momento, tudo isso pode ter interferido no modo como ele leu e, por não poder tecer comentários iguais aos que estão nos ensaios críticos, acaba achando que não entendeu nada. Confesso que, quando li “Memórias póstumas de B. Cubas” pela primeira vez, não entendi quase nada. Por ter gostado muito de Quincas Borba, mais tarde, já adulto, voltei às “Memórias” e achei interessante, rico e estimulante. Há o analfabeto que se julga assim por nem tentar ler o livro. Esse, que foge do desconhecido porque nem quer saber, não faz a humanidade caminhar, não importa para onde. Penso que seja o pior analfabeto. É claro que todos têm suas prioridades e podem selecionar o que quiserem. Não acho legal obrigar todo mundo a ler um autor que a gente acha o máximo. Agora, quanto à "comparação" de ser preferível um analfabeto de Eça a um analfabeto de "sei-lá-que-autor", não sei o que dizer. De um lado, é como um time que prefere perder da Seleção Brasileira a perder do Utumbiara (com todo respeito a este último time). Só que isso pode escamotear uma grande fragilidade do time, que talvez perderia até do time do bar da esquina, mas por ter perdido da Seleção Brasileira pode passar uma imagem de que de outros não perderia. Assim, ser analfabeto de Eça, tudo bem. Só dele ou de todos os escritores. Se ele for analfabeto de todos os escritores, qual a vantagem dessa estufada de peito? Enfim, não sei bem o que decidir sobre essa questão. Elenilson – Como foi fazer a adaptação em português de um clássico da literatura francesa, com o foi o caso do “Corcunda de Notre-Dame” de Victor Hugo? Jiro – Fiz duas adaptações de clássicos estrangeiros para o público juvenil: “Ivanhoé” e “Corcunda de Notre-Dame”. Considero que adaptação, em princípio e independente de questões sobre se é válido ou não "mexer" em Shakespeare ou Dante, é trabalho de autoria literária. No Brasil, escritores de peso fizeram adaptações dentro dessa perspectiva. Clarice Lispector, Paulo Mendes Campos, Carlos Heitor Cony e muitos outros, sem contar traduções-adaptações de Graciliano Ramos, Manuel Bandeira ou Drummond. Como não me considero um ficcionista, o que fiz nos dois casos foi mais ou menos o que os ingleses chamam de "abridged version", isto é, fiz uma tradução-resumo dos dois livros. Como foi isso? Li os dois livros no original, anotando os momentos que considerei significativos de caracterizações (de personagens, espaço e tempo) e de transformações (principalmente de ações, que vão fazendo os personagens se aproximarem ou se distanciarem de seus objetos de busca, transitórios ou permanentes). Vi muita adaptação desses dois livros em outras línguas e era realmente adaptação, como costumamos sentir quando assistimos a adaptações cinematográficas desses romances. Suprimem-se personagens, acrescentam-se outros, mudam-se alguns locais, etc. No meu caso, não criei nada de novo, e só suprimi algumas caracterizações e cenas porque o projeto era mesmo de se fazer um resumo (a editora já estabelece um número x de páginas no máximo). Desse modo, selecionados os excertos significativos dos originais, fiz a tradução. Houve necessidade de se redigir pequenos parágrafos-ponte para ligar um trecho de outro para que as descontinuidades dos trechos não criassem a ininteligibilidade. Foi uma experiência gratificante no sentido de lutar para produzir um texto que não procurasse descaracterizar o original, mas dentro de coerções pré-estabelecidas pela editora. Gostaria, é claro, de traduzir integralmente “Ivanhoé” (no caso do “Corcunda”, já há boas traduções no mercado). Mas, para isso, seria preciso que alguma editora se interessasse. Enfim, é isso. fonte: Comunidade Literatura Clandestina no Orkut. 19. "OS FILHOS DO GRAAL" de Peter Berling O que seria de fato o Santo Graal? Um cálice com vestígios do sangue de Jesus Cristo? Descendentes de Jesus, ou a pedra filosofal da alquimia? Mesmo quem duvida da sua existência não deixa de se deliciar com as inspirações que o mistério tem oferecido à literatura e ao cinema, que envolve, inclusive, o fascinante universo do Rei Arthur e seus cavaleiros. Pois é no embalo desta história que o escritor alemão Peter Berling ancora a sua obra "Os Filhos do Graal" (que a editora Rocco por um preço fora dos padrões, R$69,00). Neste caso, o centro do enredo (não-linear) são duas crianças que trazem em si uma descendência entendida como o verdadeiro Graal. Em torno dessas crianças digladiam-se protetores do mistério (templários, cavaleiros teutônicos e frades franciscanos) contra os terríveis aliados do Papa Inocêncio IV, manipulados pelo terrível Cardeal Cinza.
O livro traz ainda diversas informações sobre um dos períodos mais polêmicos do catolicismo, mas não tem o tom épico da obra de Eco. Seus personagens são conflituosos, sem nenhuma preocupação com a virtude. Serve bem mais para divertir e para quem já tem alguma noção sobre os templários, os catáros e outras figuras que tanto atormentaram a hierarquia da Igreja. É um belo livro, principalmente para professores de História que não gostam de ler nada. (“OS FILHOS DO GRAAL” de Peter Berling, romance, 1995, 305 págs. – Rocco).Como cenário da história está a Europa do século XIII e um dos ingredientes para esquentá-la é a briga pelo poder, que coloca de um lado o chefe da Igreja Católica e do outro o imperador Frederico II. Peter que já trabalhou em diversos filmes (mais de 70) como ator, produtor ou roterista, dentre eles o maravilhoso "O Nome da Rosa" de Umberto Eco. Como na obra de Eco, o protagonista de seu livro é um frade franciscano. Mas, diferente do frade criado por Eco, o de Berling, por diversas vezes, chega a ser um anti-herói, dado a tudo que não é nem um pouco santo. Comilão, amante da luxúria, é, na verdade, um personagem mais levado ao cômico. 7月7日 18. "A VIDA SEXUAL DOS ÍDOLOS DE HOLLYWOOD" de Nigel Cawthorne O glamour de Hollywood. Astros e estrelas. Anos que eu gostaria muito de ter vivenciado. Dinheiro, aliás, muito dinheiro. Poder, sexo, lágrimas, sedução, orgias. Tudo isso sempre fascinou as pessoas. E o que falar da vida sexual desses ídolos? Loucas paixões tórridas, casamentos badalados ou divórcios realizados às escondidas e às pressas, homossexualismo poucas vezes assumido (ou escancarados) e muitas vezes disfarçado, sexo em troca de contratos milionários. Nada disso era ficção: era gente em carne e osso.
P.S. Resenha anteriormente publicada no portal Literatura Clandestina, Boca de Brasa e no GLX, 19/01/06. O fascínio começa já na bilheteria, mas é só ao apagar das luzes que a verdadeira mágica acontece. Na mais completa escuridão, somos tragados pela grande tela branca e passamos a nos relacionar intimamente com pessoas até então desconhecidas, vivendo a fantasia de suas vidas como se fôssemos parte delas. Mas quem são essas pessoas? Fora das telas são o que parecem ser? Quanto do que vivem não é apenas uma tentativa de realizar os sonhos que concretizam nas telas? Muitos dos atores e atrizes se tornam tão encantados por suas imagens quanto nós, seus espectadores. De certa forma, são irreais até para si próprios, pois têm de aprender a difícil arte de equilibrar o que são com o que os espectadores acreditam que sejam. Prova disso, é o sucesso de programas como o Big Brother, onde milhões de pessoas diariamente “perdem tempo” assistindo das suas confortáveis poltronas as patéticas cenas dos até então desconhecidos, agora, “celebridades fabricadas”, meticulosamente jogadas na tela para dar pão e circo ao povo. No cinema, por sua vez, os artistas são cada vez mais exaltados pelo público, perseguidos pela imprensa, controlados severamente pelos estúdios. Desde o início, talvez as atividades mais interessantes dos atores e atrizes estivessem nos bastidores, fora do alcance dos curiosos. Onde poderiam exercer seu real papel. E é nesta tola ilusão que criamos nossos próprios personagens e os confundimos com pessoas reais, querendo crer que a ilusão é muito melhor do que a realidade. Nigel Cawthorne, ao escrever A Vida Sexual dos Ídolos de Hollywood, o primeiro livro de uma trilogia (tem ainda A Vida Sexual dos Papas e A Vida Sexual dos Ditadores) usou o termo ILUSÃO como a primeira palavra em seu livro, arrancando-nos de volta da grande tela branca e nos surpreendendo com a realidade de histórias nada românticas, num mundo em que a inocência se esgota nas telas. Sexo dá prazer, constrói fortunas e destrói reputações, Bill Clinton que o diga. Mas sexo também rende filmes, incendeia bastidores, revela estrelas e fornece combustível para escândalos envolvendo celebridades. É assim hoje, e foi muito mais nos áureos tempos de Hollywood, quando fazer o teste do sofá (como muitas vezes foi colocado no livro) era só o primeiro - e, às vezes, decisivo degrau para iniciar uma carreira cinematográfica. Esse expediente, no entanto, é o dado mais ameno que o jornalista inglês Cawthorne revela em "A Vida Sexual dos Ídolos de Hollywood". No livro, ele escancara sem pudores a intimidade de vários dos maiores ícones da história do cinema, e se põe tanto a demolir mitos como atestar outros. Veja só alguns exemplos: Os próprios donos dos estúdios estimulavam seus contratados a manterem romances na vida real, pois isso ajudava na divulgação dos filmes. Mais do que uma ode à indiscrição, o livro de Cawthorne prova que os astros também são feitos de carne e osso. Tão belos, ricos, famosos e, aparentemente, inatingíveis, eles se revelavam tão fracos quanto qualquer um quando o assunto era prazer e amor, se deixando levar pelas tentações e oportunidades. Ao mesmo tempo, a obra dá a dimensão da luxúria (adoro esse tema) que dominava (e ainda domina) Hollywood, onde ninguém era de ninguém. Um belo par de seios era o suficiente para arranjar um contrato com um estúdio, e fama era o melhor dos afrodisíacos. Ainda assim, era preciso manter as aparências. Para o público, aqueles seres na tela eram castos e perfeitos também fora dela. Mas a máscara caiu. Os ídolos estão nus - literalmente. 7月6日 17. " A CURIOSA HISTÓRIA DO EDITOR PARTIDO AO MEIO NA ERA DOS ROBÔS ESCRITORES" de José Luis Saorín “Era uma vez um rapaz que queria ser escritor. E quando teve idade para estudar na universidade, matriculou-se em filologia para aprender bem o ofício. Não demorou muito para descobrir que havia se equivocado. O que estava estudando não o ajudava a escrever e seus professores e colegas não pareciam a classe de pessoas que alguma vez tivesse feito isso. Terminou sua faculdade, e com boa nota, mas só porque seus pais haviam feito um grande esforço para lhe pagar os estudos e ele era um homem ou, melhor dizendo, um rapaz responsável”. Esse parágrafo tem tudo em comum comigo. E, para os que me conhecem pessoalmente, vão até achar que poderia ter sido eu mesmo quem o escreveu, mas, apesar de ter imensa semelhança, o autor dessa “curiosa” e familiar história é espanhol.
Esse curioso romance lançado em 2005 de José Luis Saorín sobre uma grande editora, a VMG, que tem como critério “matar o romance como também todos os gêneros literários, criando uma fábrica de livros escritos por ‘ghost-writers’, na qual os autores são somente pequenas engrenagens na cadeia de produção e onde não se fala mais em literatura e de bons leitores, mas somente em produtos e clientes” através de uns programas de EAC (Escrita Assistida por Computadores) – furor entre as editoras. Dramático isso? Pois é. E acho que estamos mesmo caminhando para esse fim, pois a supracitada categoria de escritores, pelo menos os de verdade, às vezes, são mesmo profetas do caos e meras peças de engrenagens. Confesso que tive, a princípio, muita dificuldade para entender o primeiro capítulo do livro de Saorín. Talvez pela expectativa de encontrar logo nas primeiras linhas uma crítica venenosa contra essas editoras cada vez mais mercenárias, mas o protagonista dessa história, o doído do Ramón, é muito parecido comigo – pelo menos com relação à sua personalidade e às maluquices (“A gente podia colocar uma balança nas livrarias e cada um pesava seu livro. Cada autor teria um preço por quilo de livro e a gente poderia oferecer várias opções de tipos de letras. Assim, quem quisesse economizar compraria livros com letra menor, que pesariam menos” – numa das suas muitas frases irônicas). Ramón é o tipo do cara que eu me identifico de cara – um ser atípico, com 25 anos (mas não sei bem se foi eu que não prestei atenção, pois no meio da história ele aparece com 42 anos – acho que foi um erro de continuidade) e logo no comecinho da trama aparece numa confusão “retada” com uma máquina de comprar bilhetes para uma viagem de metrô. E como a tal máquina não estava funcionando direito (não tinha troco), ele teve que comprar as moedas de uma desconhecida (a Laura – vilã ou mocinha da história? – não ficou muito claro) muito desconfiada por cinqüenta euros – uma idiotice, como o próprio personagem admitiu mais tarde. Em crise com o seu chefe de departamento, o ganancioso e mercenário Luvic (um cara bem mais comum do que o livro tenta mostrar (ele poderia trabalhar num dos colégios que eu já dei aulas) – que acha que “comer” secretárias é a melhor coisa dessa área e que para ser diretor de uma grande e respeitada editora as únicas coisas necessárias eram: saber ganhar dinheiro, comer bucetas e passar por cima dos outros). A história de Ramón é uma ácida, delirante e hilariante reflexão sobre algumas tendências da indústria cultural (“A maquinaria produz livros à custa dos cadáveres dos escritores”) e os tributos que a identidade pessoal deve pagar para sobreviver, no caso, até mudar de identidade para tentar fazer sucesso (pois Ramón usa o codinome de Nomar Wallace, autor de novelas água com açúcar – coisa muito comum nesses tempos de Big Bhother). O livro discute a literatura não como obra, mas como mercadoria descartável. “Os investimentos da indústria do lazer nos últimos cinqüenta anos tinham sido feitos no cinema, na televisão, na internet, nos videogames ou na música. Em qualquer campo menos nos livros”, disse Saorín num dos capítulos. Infelizmente as editoras preferem continuar com o “crème de la crème” das suas listinhas de autores consagrados do que investir em novas cabeças, o que no livro o autor tenta enfatizar com muita ironia: “Sempre tenho a mesma sensação quando noto que as rodas já não encostam no asfalto da pista”. E, justamente nesse meio que Ramón, solteirão desencanado, inventa, além do codinome, uma esposa imaginária de nome Marta para aparentar ser um cara sério e respeitável. O autor faz questão de deixar claro que os escritores são uma espécie em extinção e que, enquanto restar algum, as editoras vão continuar a utilizá-lo, embora sob condições próprias de produção, pois se não entrarem na maquinaria de produção e marketing, o mercado esquecerá deles (“Você viu os músicos de sempre? Estão tremendo diante da chegada de meninos desconhecidos que vendem dez vezes mais que eles. São produzidos ao ritmo de dez a cada seis meses. O autor solitário está morto”). Narrado em 1ª pessoa, cheio de frases irônicas e críticas ferozes à industria cultural, o livro é uma tentativa de alertar para o que muitos já sabem: para um livro ser considerado importante tem de ter passado pelo crivo de alguns mercenários capazes de tudo para tirar o proveito. Encontrei muitos erros de concordância no texto, como também palavras incompletas ou escritas errado (coisas da edição). Não gostei muito dos últimos capítulos – muito premeditado – mas aquela idéia de mais um pseudônimo utilizando o próprio nome do autor, achei fantástico. Também gostei das várias referências dentro da história (coisa que eu sempre usei e sempre fui criticado por causa disso): usar o final trágico de Romeu e Julieta de Shakespeare para simular a morte de Nomar Wallace, citar Júlio César e Brutus, Sansão e Dalila, as xícaras do Piu-Pui e do Pateta, Marlon Brando em O Poderoso Chefão, os bancos das Ilhas Cayman, Darth Vader de Guerras nas Estrelas e outros foi fantástico. Além, é claro, que eu não podia deixar de comentar: muito legal o nome da editora concorrente, editora Livros são Amores. Portanto, você tem que ler esse livro de José Luis Saorín. Uma excelente obra que mostra o quanto o trabalho de muitos autores é avaliado com os seus prós e os seus contras; e também a maneira como a indústria está matando e enterrando a si mesma, como “frangos que são vendidos aos pedaços” – nas palavras do autor. (A CURIOSA HISTÓRIA DO EDITOR PARTIDO AO MEIO NA ERA DOS ROBÔS ESCRITORES de José Luis Saorín, 242 págs. Rio de Janeiro, 2005 – Relume Dumara). 16. "STING - Uma Biografia" de Wensley Clarkson Eu sempre gostei desse cara azedo, independente de ele ser hoje um astro egocêntrico da música pop. Músicas como “Fragile”, “All This Time” e “Every Breath You Take” fazem parte de um período esquisito da minha adolescência (que não quero nem lembrar), mas o que mais me aproximou de “Sting – Uma Biografia” (adoro biografias) foi ter descoberto que o cantor também já foi um professor dedicado que se decepcionou com a educação, que seu interesse pela literatura foi iniciado com o livro “A Ilha do Tesouro”, que até hoje ele lê tudo o que lhe caia nas mãos, que ama a palavra escrita e que ainda relê suas passagens favoritas de livros. E o período difícil (sem dinheiro), o primeiro contrato com a gravadora Virgin (que o explorava, mas que segundo o próprio cantor era melhor do que nada) e os primeiros shows de jazz-funk em Londres fazem parte das histórias curiosas do livro.
Seguindo a antiga tradição dos músicos em começo de carreira, Sting também recorreu ao seguro-desemprego: “Foi uma experiência assustadora e humilhante. Eu odiava ir à repartição do governo pegar o dinheiro, pois todos agiam como se estivesse saindo dos seus próprios bolsos”, relembrou o cantor. Até parece que ele estava falando do serviço público do Brasil. Também me chamou atenção o fato do cantor ter confessado ter fumado maconha aos 12 anos, que o guitarrista do The Police, Andy Summers, transava com dezenas de fãs (numa época em que ninguém ouvia falar de Aids) e chegou até a aparecer num livro escrito por uma delas, que fez questão de descrever o pau do cara como “perfeito”. Encontrei uma observação de Sting sobre a bela canção “Roxanne”: “Não há nenhuma palavra sobre sexo ali. Não é uma canção suja. Era uma canção real, e eles não queriam tocar porque era sobre uma prostituta. Mas se você escrever uma canção idiota sobre uma trepada sem a palavra “trepada”, fará o maior sucesso. E isso é de deixar a gente deprimido” - hipocrisia do meio musical. E o pior é que ele iria ficar mesmo deprimido se ouvisse as atuais músicas (pagodes e axés) que o povo brasileiro costuma engolir goela abaixo. Gostei muito de saber da opinião do maravilhoso Elvis Costello com relação ao Sting: “Alguém deveria dar umas porradas e falar para ele parar de cantar com aquele sotaque ridículo de jamaicano”. Mas o livro, apesar de ter sido escritor por um fã, foi muito venenoso quando afirmou que Sting sempre achou que era o líder do Police tanto no palco como fora dele, que achava cool ser um cara promíscuo e que muita atenção lhe era dada pelos pequenos papéis em filme B somente por ele ser um astro do rock, enquanto atores de verdade eram constantemente ignorados. Em 81, quando o disco “Ghost In The Machine” foi lançado, Sting teve de fazer alguns esclarecimentos sobre o título tirado do livro do também famoso psicólogo Arthur Koesther, para quem o homem estava se tornando semelhante à máquina. O livro afirma que um dos motivos do termino do Police foi o fato de Sting achar que as composições feitas pelos companheiros de grupo eram uma porcaria e ainda achar que merecia uma parcela maior dos royalties. Bom mesmo foi saber da amizade do cantor com o inimitável Bob Geldof (que em 2005 organizou o Live 8 e que a mulher desse dava em cima de Sting descaradamente), o casamento com a atriz Trudie (que tem a cara da Annie Lennox), que no início do sucesso do Police algumas fãs estavam tão iludidas que imaginavam que o grupo era mesmo formado por policiais, que Sting era viciado em maconha e cocaína, de ter doado centenas de milhares de libras à caridade na tentativa de compensar a sua culpa por ser tão rico depois de ter visto o “Terceiro Mundo morrer pela tela da TV todas as noites”, sua preocupação com os problemas sociais e o drama das florestas tropicais. Hilário foi a parte em que é descrita uma tal casa do século XVII que Sting comprou por seiscentas mil libras, que possuía a fama de ser assombrada pelos fantasmas de uma mãe e seu filho. Os fantasmas apareciam por todas as partes da casa, no meio da noite, no canto do quarto, e deixava Sting aterrorizado. Ele disse ter acordado certa vez e olhado para o canto do quarto e viu a mulher com a criança. Então Trudie disse: “Sting, o que é aquilo no canto?” E Sting se viu obrigado a chamar um espiritualista. Um outro episódio muito interessante é o seu encontro com o famoso ladrão de trem Ronald Biggs, numa jogada para promover a turnê do cantor no Brasil (digo, Rio de Janeiro) no início dos anos 80. A idéia era fazer o Police “prender” o Biggs, numa brincadeira com o nome do conjunto. Lá em dezembro de 87, Sting foi ao Rio de Janeiro para um show; descobriu o badalado restaurante Satyrico; conheceu a “super-famosa” gerente de publicidade da Polygram, Gilda Matoso, que viria a se tornar amiga íntima do cantor; presenciou um incidente desagradável com o tecladista afro-americano do grupo que foi vítima de preconceito pela polícia carioca e, tempos depois, Sting foi persuadido a conhecer os índios caiapós da região do Xingu – todavia, antes mesmo de chegar à floresta amazônica, o cantor teve de vencer uma muralha burocrática só para conseguir permissão para a viagem, pois a destruição de sessenta acres a cada minuto não era o tipo de publicidade que as companhias madeireiras desejavam. E o mais surpreendente de tudo: o encontro com um homem com “contas cerimoniais, trajando calça Levis e que entre o queixo e o lábio inferior, havia um grande prato de madeira”, era o chefe índio Raoni. Com o tempo, na tribo, os índios deram um apelido a Sting de “Potima”, ou seja, “o fígado de um pequeno tatu”. Uma das muitas frases interessantes retiradas do livro a respeito dessa viagem de Sting a Amazônia é a seguinte: “O homem ocidental está regredindo; esquecemos nosso verdadeiro potencial. Os índios do Xingu podem nos fazer relembrar o que realmente somos”. Porém, reportagens aqui no Brasil afirmavam erroneamente que o cantor havia sido expulso da cidade pelos índios, mas a verdade era que diversos proprietários de terra estavam tão irritados com o envolvimento de Sting que decidiram matá-lo para colocar um ponto-final no suposto interesse mundial despertado sobre a floresta. Sting ficou muito assustado, pois sabia (como todo mundo sabe) que a polícia brasileira estava ali somente a serviço dos ricos proprietários de terras. E no meio desses boatos, prostitutas de todas as partes do país haviam viajado, sabendo da presença de Sting e sua equipe, para tentar fazer bons “negócios”. No início de 89, quando Sting retornou ao Brasil, pediu a amiga Gilda Martoso que ajudasse na organização da cobertura da imprensa para divulgar seus planos de salvar a floresta. Gilda foi em frente e conseguiu uma entrevista com a chaterrima revista Veja. Resultado: ela foi demitida da Polygram. Na época do lançamento da campanha para salvar a floresta o governo Sarney exigiu que um “espião” acompanhasse o grupo pelo mundo para relatar tudo que acontecesse. A amizade entre Sting e Raoni fez com que o cantor levasse o índio até a presença do papa, mas a visita foi um desastre, pois depois de esperarem horas no Vaticano, o papa deu a cada um deles apenas um rosário de plástico e desapareceu. Raoni ficou tão irritado que Sting teve que segurá-lo porque ele parecia disposto a bater do papa. No Japão, Raoni encontrou várias tietes, em especial duas delas que, tempos depois, ele as levou ao seu quarto onde queria ficar o tempo todo trancado. Uma coisa que não concordei muito no livro foi à afirmação de que “algumas pessoas no Brasil (na selva) viam Sting apenas como uma espécie de vale-refeição – uma maneira fácil de obter alguns dos luxos da vida que lhes haviam escapado”. É inacreditável a história de que Sting obrigava membros da sua equipe a assistirem o filme “Atração Fatal”, só para alertá-los das “suas obrigações como homens de família” (como se ele próprios não tivesse dados suas escapulidas), em outras palavras, que seriam demitidos se fossem pegos com mulheres “oferecidas” depois das apresentações. O livro é muito detalhista ao descrever os boatos de fãs enlouquecidas querendo dormir com Sting ou querendo seqüestrar seus filhos para chamarem atenção; a antológica briga com o Rod Stewart; a história de que o cantor foi roubado pelo próprio contador – que desviava recursos para pagar seus próprios impostos e a surpreendente versão de que a esposa de Stig, Trudie, realizou um documentário sobre os travestis cariocas, chamado “Rapazes do Brasil”, e que durante as filmagens havia “adotado” uma menina de rua que a seguia por toda parte. Uma coisa ficou muito clara: “Sting tinha plena consciência de que muitas críticas que lhe eram desferidas durante a campanha vinham de pessoas que pareciam querer que a sua luta em favor da floresta fracassasse”. Nesse período, espalhou-se um boato de que o cantor morrera de overdose. Uma coisa muito legal: a amizade dele com Bob Geldof (apesar das brigas) era algo muito raro no instável mundo dos superstars do rock e o seu envolvimento o polêmico grupo ramificado da seita do Santo Daime. Em suma, como diria o próprio Sting: “Sou uma pessoa normal. Só uma pessoa. Eu cago, eu bebo, eu trepo, eu respiro”. Curiosidades: uma cena do filme “A Grande Farsa do Rock And Roll” dos Sex Pistols em que Sting aparece beijando Paul Cook (Sex Pistols) na boca foi cortada, pois apesar de toda a suposta “liberdade” sexual no final dos anos 70, um beijo entre dois homens ainda era algo muito ousado. E a música “Every Breath You Take” (Cada Vez Que Você Respira) foi composta por Sting na casa de Ian Fleming, o romancista criador do James Bond, na Jamaica. P.S. Ouça o maravilhoso CD “Brand New Day” de 1999. (“STING – UMA BIOGRAFIA” de Wensley Clarkson, biografia, 304 págs. 1997 - Ed. Ática). 15. "O GARÇON B" de Alma de Assis
Eu adoro esses livrinhos perversos. Adoro essas histórias que exalam cheiro de sexo, personagens problemáticos e uma estrutura paranóica – literalmente falando. Mas esse “diário verídico de um amor sadomasoquista” (subtítulo) é, na verdade, um estudo de psicologia da alma feminina muito melhor do que muitos livros acadêmicos. Não gosto muito dessas mulheres que querem morrer por amor, na esperança de conquistar seus homens por meio do seu próprio sofrimento. Acho esse tipo de coisa muito clichê, mas vamos à história. A autora-personagem Alma resolve contar a sua história de “amor” sadomasoquista com um tal garçom B que trabalha no restaurante Dom G. Um relacionamento cheio de rancor, frustração e pancadaria. Sinceramente não acredito nessas histórias de “amores platônicos” recheadas de sexo e porradas, mas Alma foi corajosa em relatar o seu caso. Tem um tal de dr. K (psicanalista) que é hilário, tem a Alma dançando com dois caras ao som do Tim Maia, tem uns discursos do tipo: “quer meu pau?, gosta de chupar?, senta aqui, putinha vagabunda” e as surras deprimentes que o tal B dava em Alma. A personagem, contudo, muitas vezes se faz de vítima, mas o leitor pode analisar bem esse caso – vítima ou não, a sua história é triste e muito comum nas grandes cidades. Algumas partes do livro são muito cansativas: as várias cartas de amor que nunca foram entregues, os “casos” frustrados com dois caras (Senhor O e GS) que ela encontrou em anúncios de revistas pornográficas, os personagens terem sido apresentados por letras e as idas e vindas à delegacia. P.S. Uma coisa curiosa: Alma responde aos anúncios de revistas pornográficas com o pseudônimo de Florbela, em homenagem a poetisa portuguesa Florbela Espanca. No mais, o livro é interessante, vale a pena pela curiosidade desse meio. (“O GARÇOM B” de Alma de Assis, romance, 156 págs. 1998 - Ed. Rosa dos Tempos). 7月4日 14. "MAL SECRETO - INVEJA" de Zuenir Ventura
Se eu fosse levar em conta todas as observações indigestas desse livro, provavelmente vão me colocar na lista dos piores invejosos, pois achei o livro um porre. Essa coisa de “inveja boa”, descrita no livro, não existe nem aqui nem na China, mas segundo o próprio Ventura: “de boas vivências o inferno da literatura anda cheio”. Classificado como um livro sobre o mais brasileiro dos pecados, mas com uma narrativa nada envolvente (típica de estudante universitário preste a entregar uma monografia), acompanhamos o autor em sua “árdua missão” - a de revelar algumas facetas desse pecado inconfessável, a inveja. Nesta trajetória cercada de revelações pessoais, o autor compartilha com o leitor todo o making of desse livro. De um bate-pernas por dezenas de livrarias de Paris, por terreiros de umbanda e candomblé, para a compra de uma publicação rara sobre o tema aos bastidores de uma pesquisa de opinião e uma série de entrevistas e visitas a consultórios de psicanalistas e igrejas, somos convidados a participar de um inusitado jogo com ingredientes de um bom filme de suspense. Um emaranhado de informações que me deixou um pouco zonzo. Mas como disse o próprio autor no livro: "O ódio espuma. A preguiça se derrama. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho brilha. Só a inveja se esconde", e acho que me encaixei numa frase: “Desconfie de quem é sempre do contra, os muitos críticos, os intolerantes, os antitudo. No fundo, não passam de impotentes invejosos”. E nesse vai e vem desse "Mal Secreto", primeiro volume da coleção “Plenos Pecados”, Zuenir esbarra em histórias e relatos sobre de amor, medo e morte. E de repente somos apresentados a Kátia, uma jovem perturbadora, de olhos verdes fumegantes, sedutora e voluptuosa que o autor conhece num terreiro de umbanda da Baixada Fluminense. Tem uma outra frase de lascar: “Em um mundo igualitário, o sucesso do outro se torna insuportável. Por isso os intelectuais desmerecem Paulo Coelho” – como se todo mundo que não gosta do Coelho fosse também um intelectual. E então, diversas vezes senti o vazio, “como Adão sentiu sua nudez” (tirei isso do livro). No final, cabe ao leitor abandonar sua posição de um simples observador - que se deixa levar pelos acontecimentos - e assumir o papel de investigador, crítico, elucidando o mistério. E talvez perceba que também é um invejoso. No mais, sinceramente, o livro de Zuenir é realmente “um prato indigesto”. ("MAL SECRETO – INVEJA" de Zuenir Ventura, romance, 264 págs. 1998 - Ed. Objetiva). 13. "OS CANIBAIS ESTÃO NA SALA DE JANTAR" de Arnaldo Jabor
Sinceramente, sempre achei o Jabor um pé do saco. Um cara elitista que gosta de falar mal de coisas que ele não conhece, principalmente, sobre pobres. Filmes como “Eu Te Amo” e “Eu Sei Que Vou Te Amar” não passam de uma compilação dos seus desejos sexuais frustrados. Porém, em “Os canibais...”, muito melhor do que “Sanduíche da realidade”, o autor, comentarista, pinguço e cineasta carioca aborda com uma linguagem peculiar, muito diferente da que vem utilizando nos comentários “encomendados” para a Globo. Os artigos reunidos nesse livro foram anteriormente publicados no jornal Folha de S. Paulo e são testemunhos de ceticismo, ironia e dor. Dor de ser perseguido pelo Brasil, por uma idéia remota de Brasil, pelo sentimento pungente de ser brasileiro. Jabor descreve os “jovens louros e lindos que já não têm a ingenuidade alienada dos anos 60”, um “encontro” surreal com o Oswald de Andrade em plena Semana de Arte Moderna, fala dos travestis no Rio de Janeiro que não querem ser mulheres, da angustia do João Cabral e da visão errônea que antes o Brasil era melhor. Se numa parte ele descreve (cena a cena) a morte de três assaltantes na cidade de Matupá que foram baleados e queimados vivos pelos próprios moradores, noutra ele fala sobre Glauber e o seu Cinema Novo. E ainda discorre sobre Nelson Rodrigues, sobre o problema da literatura brasileira, sobre Rimbaud, sobre crise, sobre riqueza e pobreza, sobre a descoberta de muitos países dentro do Brasil, sobre filmes pornôs (massa!!!), sobre pênis-afro e pussies-afro (bucetas), sobre seca no Nordeste, sobre o filho da puta do Collor (“nosso presidente mais galã que se cercou de feios”), sobre Medici e Geisel, sobre a morte do PC, sobre sórdidas surubas em Brasília, sobre o Roberto Marinho, sobre impeachment, sobre o governo militar, sobre a desgraça que é a televisão, sobre viados (ele adora falar de viados), sobre o quadro “As meninas” de Velázquez, sobre Fidel, sobre medo da miséria, sobre camisinha em tempo de Aids, sobre os intelectualóides e a governabilidade das esterilizações obrigatórias, sobre a morte dos 111 presos de Carandiru (GOSTEI MUITO DO TEXTO) e sobre políticos que não saem nem f... do poder. A última crônica é muito interessante: um diálogo com o próprio Nelson Rodrigues. Em suma: “Os canibais...” é um bom livro, mas eu esperava muito mais de um cara que escreveu isso tudo do que aquela marionete com discurso pronto na tela da Globo. (“OS CANIBAIS ESTÃO NA SALA DE JANTAR” de Arnaldo Jabor, crônica, 224 págs. 1993 - Ed. Siciliano). 12. "O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN" de Annie Proulx
Já tinha lido o livro no ano passado, na época do lançamento do filme, mas ontem, antes de sair para fazer uma prova de concurso público, resolvi ler tudo de novo. E o filme é bem melhor, tratando-se de um livro (que é um conto) que foi lançado de carona no sucesso do filme e não há como não comparar. Muitas coisas no texto soam artificiais, mas ficaram perfeitas na tela. O conto dos caubóis gays começa com um flashback, em que Ennis aparece mais velho, logo após sonhar com Jack. Não achei nada vulgar a maneira como Proulx narrou a história, como muitos jornalistas escreveram por aí. Parece que toda a surpresa reservada pela narrativa – o fato de os caubóis se descobrirem homossexuais - reduz-se ao próprio fato. Mas a história se mostra muito além disso. De positivo, resta o tratamento dado ao espaço, com descrições bonitas sobre as cores da manhã, a tempestade, o anoitecer. Não à toa, um personagem que curiosamente se sustenta na história é o vento, que reaparece sempre, como que seguindo a narrativa e assumindo várias formas. Logo no início, "o vento bate no reboque como uma carga de lixo sendo despejada de um caminhão"; chegando na montanha, os dois entram "nos grandes prados floridos e na ventania sem fim". Uma cena que poderia ter sido mais explorada no filme e que aparece como a mais comovente do conto é aquela em que Ennis se lembra que o único momento de "felicidade natural e encantada em suas vidas separadas e difíceis" foi o momento, não de uma trepada, mas de um abraço mudo e apertado. Muito legal. Talvez isso dê razão àqueles que dizem ter visto no filme não uma história homoerótica, mas mais uma bela história de amor. E VIVA A DIVERSIDADE! (“O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN” de Annie Proulx, conto, 72 págs. 2006 - Ed. Intrínseca). CRÔNICA SOBRE LITERATURAO INFERNO NO MUNDO LITERÁRIO
Hoje, 05/06, me deparei com o escritor Luiz Alberto Mendes – autor do maravilhoso conto “Cela forte” – participando de um programa matinal da Record. Chamou-me atenção a falta de preparo dos apresentadores do programa ao entrevistar o Mendes, principalmente por desconhecerem por completo o seu trabalho. Impossível de eu não comentar aqui nesse espaço, pois assim como o livro Fausto é uma amostra do ceticismo radical, a nossa literatura é tratada como produto de segunda mão pelos meios de comunicação. Quanto a mim, que sou metido a escritor, não existem mais dedos em minhas mãos que possam contabilizar a quantidade de concursos literários que venho participando pelo país e em outros países de língua latina. Já fiquei em 1º Lugar no I Concurso de Literatura Virtual, classificado no II Prêmio de Literatura da Asabeça e Menção Honrosa no IV Concurso Internacional de Poesias de Cuba e, até hoje, o chamado “incentivo” ainda não despontou no horizonte. E apesar de ter participado de algumas dezenas de antologias e de ter mais algumas dezenas de trabalhos em processo de seleção em concursos pelo país inteiro e também já ter cinco livros editados (de forma independente), sendo que o último Poemas Perversos Para Cartas de Amor (com uma tiragem de 1.000 exemplares) já esgotou devido à sua participação na 8ª Bienal de Livros da Bahia, comprovando, por tanto, que a literatura para mim é uma necessidade quase existencial, uma prioridade na minha vida que tento levar muito a sério. Mas, a cada dia, fico mais desesperado com a maneira com que a carruagem anda. AMORES EXPRESSOS - Em março, por exemplo, um anúncio de um projeto chamado “Amores Expressos” causou rebuliço nos meios literários brasileiros – noticiado também na revista Veja. Blogues de escritores famosos (ou nem tanto) não falaram de outro tema: dezesseis autores brasileiros foram escolhidos para viajar cada um para uma cidade diferente do mundo, em busca de inspiração para – vejam que coisa mais singela – escreverem uma história de amor. Segundo a Veja, os dezesseis romances de amor resultantes serão publicados pela Cia. das Letras – editora que já demonstrou desinteresse com relação ao meu romance “Clandestinos” (na gaveta desde 2002) em co-autoria com Anna Carvalho, que arcará tanto com os custos editorias como com os custos das viagens. O principal objetivo desse projeto, segundo o produtor Rodrigo Teixeira, articulista do projeto, é que os livros se prestem a adaptações cinematográficas. Cada autor, além do passeio com estadia de um mês e uma ajudinha de custo média de 100 euros por dia, receberá 10.000 reais pelos direitos audiovisuais de seus livros. A gritaria, por todos os lados, contra os critérios de seleção dos autores centrou-se num único ponto: de que o projeto se deu com suporte de dinheiro público, via Lei Rouanet – que talvez venha beneficiar também igrejas evangélicas. LEI ROUANET - Segundo Sérgio Rodrigues, do site No Mínimo, parte do burburinho se explica pelo custo total do projeto: R$ 1,2 milhão, grana vistosíssima num mercado franciscano. O fato de “pouco menos de metade” desse valor, segundo Teixeira, ser dinheiro de renúncia fiscal, captado ou ainda em fase de captação pela Lei Rouanet, contribui para a polêmica – uma polêmica que, justiça seja feita, deveria ir muito além desse caso e envolver um debate sério sobre o próprio mecanismo de financiamento de produtos culturais pelo contribuinte. Não menos ruidosas são as críticas provavelmente inevitáveis à lista de eleitos, elaborada por Teixeira e pelo jovem escritor carioca João Paulo Cuenca, contratado como “coordenador editorial”. Talvez com a baixa do dólar nos últimos meses tenha realmente afetado a variedade e a qualidade dos livros que lemos e a qualidade das obras que chegam às estantes das livrarias do Brasil – o que deveria ser o contrário. Talvez por causa disso, as grandes editoras não investem em obras de qualidade, principalmente, de “novos escritores”. Mas eu prefiro não acreditar nessas coisas. Lá no final de 2002, foi sacramentada num congresso em Frankfur – que reuniu as maiores editoras do planeta, incluindo os senhores editores brasileiros – numa negociação para comprar os direitos de mais um livro do colombiano Gabriel Garcia Márquez, Prêmio Nobel de Literatura, que tem uma comunidade no Orkut – que eu mesmo iniciei – chegando aos 15.000 membros. E quanto aos milhares de autores sem financiamento nem para entrar na internet para fazer uma pesquisa? Quanto custa o descaso da maioria dessas editoras? Quanto custa a passividade das pessoas? Quanto custa deixar de se tentar? Quanto custa ter que passar por esses constrangimentos? A impressão que temos é de que os atuais “cânones da literatura brasileira” incapazes de produzir boa literatura, agora lhes restam brigar por passagens aéreas. PUTREFAÇÃO - É triste ver o Brasil mergulhado num oceano de putrefação – não só na política. Em quase todos os setores da vida pública brasileira a corrupção impera. Dentro da educação, então, a coisa é gritante. E agora também nos meios literários. A escolha dos autores – aparentemente pelo critério de “apadrinhamento” – foi feita pelo próprio Teixeira e pelo escritor João Paulo Cuenca (que – lógico! – vai viajar para Tóquio). Os dois admitiram na Veja que a “afinidade” com alguns autores pesou na seleção – a qual, é claro, causou ciumeira no meio das panelinhas. É muito triste, repito, é muito triste ver a literatura brasileira afundando-se, em termos de moralidade, com o lacre da desesperança selando não só o coração dos leitores, mas também de muitos autores. Desesperança, sim, compreendida em razão de uma posta na ordem do dia: IMPUNIDADE. Cito a literatura, em especial, por ser o termômetro do ser humano, carro-chefe do nosso desenvolvimento. Como tal, todos os acontecimentos desonrosos nela inserida, envolvendo homens, aparentemente comprometidos com a tal educação – que também já está jogado no limbo a muito tempo – têm repercussão negativa em tudo e em todos. Com esse clima de desonra, abre-se nela as portas para uma revolta, como já se começa a perceber, com movimentos variados e até com ataques antidemocráticos. Aliás, até mesmo o presidente Lu(l)a já disse que “estamos em situação de perigo”. 11. "BUDAPESTE" de Chico Buarque
Ganhei o livro em 2003 e de muitas maneiras li o que Chico Buarque conta em Budapeste e titubeio diante da tentação de resumir tudo nesse pequeno post aqui no meu espaço provisório de todos os dias. Estranheza minha talvez. Me senti desconfortável em minha própria pele, não importa onde eu vou e como quem estou, assim ele questiona alguns valores – valores que tantas vezes eu também já questionei. No afã de comunicar essa sensação, o autor de “A Rita” (adoro essa música) acabou contando muitas outras histórias que eu li de um só tempo tomando Coca-Cola, ouvindo a sua discografia que baixei em MP3, mergulhando, mergulhado, devagar, bem devagarzinho, nesta sensação praticamente indescritível. No livro, o personagem realmente sabe contar, mas no ofício que escolheu não sai da sombra nem f... O casal – luz e sombra - tem um filho, doente de afeto, que não se conforma em herdar a não existência de seus pais. Grita e se estrebucha. Parece ser um autista – muito comum nos dias de hoje. A perfeição desse triângulo dispensa comentários. Li também, neste livro, olhando de outro ângulo, uma perfeita descrição de uma compulsão à repetição. O personagem central, José Costa, locupleta-se vivendo na sombra. Diverte-se em não ser nunca achado. Não importa aonde, se no Rio de Janeiro ou em Budapeste, ele sempre consegue criar ou encontrar a sombra que lhe parece a condição mais confortável de vida. Como "ghost writer" de um alemão, ele assiste seu cliente tornar-se famoso – um best seller. José foge. E vai parar em ruelas sombrias de Budapeste. Lá onde não conhece ninguém nem fala a língua, ele concretiza sua sensação de estranheza. Neste fim de mundo reencontra um poeta que conheceu no Rio, que de repente desaprendeu a escrever. |
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