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日志


6月29日

10. "LITERATURA MARGINAL" organizado por Ferréz

A ÚLTIMA REVISTA ACABOU DE PASSAR,
OUÇO O SOM COMUM DA MINHA CELA AO FECHAR

A literatura marginal mudou. Principalmente em relação à que surgiu nos anos 70. Segundo a antropóloga Érica Peçanha Nascimento, naquela época os autores eram pessoas da classe média e alta que falavam sobre seu cotidiano de modo irônico. E atualmente, o projeto dos escritores da literatura marginal é dar voz aos grupos excluídos da sociedade. Hoje eles querem denunciar a violência - principalmente a policial -, o alcoolismo nas famílias, a força do tráfico e a falta de perspectiva dos jovens. Por outro lado, buscam valorizar aspectos positivos da periferia, como solidariedade, o modo de falar e as gírias características, além das manifestações culturais que estão surgindo nesses lugares.

Aos 36 anos, o organizador dessa antologia Literatura Marginal, o agitador cultural Ferréz, conseguiu chegar ao grande circuito editorial, com cinco livros publicados. O primeiro, Capão Pecado, já foi lançado até na Europa. O autor é o único que atinge dois públicos diferentes: o de classe média e alta, que tem contato com ele em eventos como a Bienal do Livro ou a Feira Literária de Paraty, e o público dos bairros de periferia, que encontra o escritor nos Centros Educacionais Unificados (CEU) em São Paulo, por exemplo.

O trecho no título deste post é o início do poema do paulista Ridson, morador da favela do Jaqueline e que pertence ao movimento de Cordel Urbano, o que me lembrou muito o desespero solitário de muitos poetas anônimos em mostrar as suas artes como uma forma de sobreviver na adversidade, como também o romance de nome impronunciável que Dostoiévski estava escrevendo quando foi preso em 1849.
Mas a falta de hábito de leitura do brasileiro, apontada pelos proprietários de livrarias como uma das principais causas pelas baixas vendas no setor e confirmada pela pesquisa “Retrato da Leitura no Brasil”, realizada em 2001 pela CBL, acaba engaiolando não só os autores, mas toda a nossa sociedade cada vez mais idiotizada em suas salas assistindo às cenas do BBB ou de programas nas tardes de domingo na TV brasileira. Contudo, além disso, podemos citar a falta de estímulos de professores (cada vez mais incapacitados) em utilizar a leitura de textos em salas de aula e também a falta de incentivo do próprio Governo Federal com os seus problemas de superlotação de cargos públicos.
O senhor presidente Lu(l)a, por exemplo, não cansa de usar as suas metáforas para dizer que estamos vivendo um período de mudanças, que só ele mesmo acredita. Mas enquanto o marido de Dona Marisa contínua lá em Brasília usando o seu governo como um cabide de empregos, o povo brasileiro vai continuar na “merda” absoluta, pois hoje a violência e a ignorância é a tinta dominante nas cidades.
Entretanto, o que tudo indica é que o medo é também um fator universal num terreno confinado. E os enredos de vidas nas periferias se parecem e nascem de gestos mínimos em sites clandestinos num mundo cada vez mais paralisado pela introspecção brutal e constipado por delicadas refeições mentais, onde a brutal exposição de um livro surge como vitalizante na corrente do sangue. Contudo, literatura boa mesmo cresce como capim no jardim da burguesia se for adubada e estimulada nessas situações ainda mais rocambolescas.
O LIVRO – Cinco anos depois da primeira publicação, a revista Literatura Marginal virou livro, onde foram reunidos textos de autores da periferia de São Paulo. Assim como a revista, que surgiu do encontro de Ferréz com a revista Caros Amigos, o livro faz ecoar a voz solitária dos escritores que não têm acesso à mídia, às livrarias e às universidades onde, por diversas vezes, os leitores mais atentos poderão encontrar erros gramaticais gritantes que, mesmo assim, não foram capazes de tirar o valor da obra – um sinal dos tempos da era da informação, dos textos curtos, condensados e objetivos. Portanto, ninguém segura os talentos periféricos – mesmo que alguns precisem de um pouco mais de atenção na linguagem ou que utilizem essa bandeira como autopromoção para falar de assuntos sobre os quais não vivenciaram.
Ferréz, por exemplo, já tem 4 livros publicados, Fortaleza da Desilusão (poesia), o já citado Capão Pecado (romance), Manual Pratico do Ódio (romance) e Amanhecer Esmeralda (infantil). Manual Pratico... vai ser o seu primeiro livro que vai virar filme do cinema nacional, dirigido por Antonio Pinto e Daniela Tomas, o que prova a qualidade dos textos que muitos acadêmicos teimam em  não valorizar. Mas escrever é como sangrar e a crítica ainda vai jogar essas narrativas nas alturas.
Em Literatura Marginal o destaque vai mesmo para o afro-maranhese Preto Ghóez com as suas memórias onde descreve o tempo em quer vivia num cinema de periferia assistindo filmes onde os “maluco” pegavam a Escrava Isaura de jeito e passavam o ferro nela. Ou então, a bela poesia do paulista Eduardo Dum-Dum:

”No céu que a pólvora encobre as estrelas, ela não pode voar, no chão minado com trincheira e soldados, ela não pode pousar. Suas asas, estão manchadas de vermelho, tem hematomas das correntes no cativeiro, no olhar um rio de lágrimas, com um navio de desespero.”

Muito interessante também é o poema “A Bahia que Gil e Caetano não cantam” do poeta baiano, nascido em Ilhéus, Gato Preto: “A Bahia do descaso, descamisados, desabrigados”. Uma Bahia muito diferente daquela mostrada na revista Caras e derivados é um manifesto de indignação, onde o poeta cita até o ACM com chicote na mão.


”Terra de mortes, crimes encobertos
Terra de riquezas pra poucos, miséria pro resto
Terra de cultura e rico dialeto
Os ignorantes dizem que o linguajar é incorreto
Bahia de coreografia pornográfica
Criança de doze anos excita magnata
Quando ele vê ela rebolando na garrafa
Cenas exibidas aos domingos na tela mágica.”


Porém, o texto que mais me chamou atenção, com relatos brutais e povoados de aventuras, sobre os presidiários que estão a escrever cada vez mais e melhor; aquele texto que me pegou de jeito e que, depois do sucesso de Estação Carandiru de Drauzio Varella, abalou as categorias consagradas da literatura, pois já havia ganhado alguns prêmios e também publicado na revista Cult - o que muitos críticos podem até considerar como uma arte menor, mas os artífices da nova palavra enjaulada têm um nome e chama-se Luiz Alberto Mendes.
Fiquei muito impressionado com o texto “Cela Forte” do moço, tanto que já conhecia suas linhas e também já o havia citado no meu romance Clandestinos. Mendes estava preso desde os 19 anos por assassinato – recentemente ele apareceu na TV num programa da Record. Mendes foi condenado por homicídio a 74 anos de cadeia. Hoje, tem uma aflição e uma necessidade de expressão muito grande de sangrar que só encontrei nos textos de Dostoiévski, onde a prisão parece ser o último bastão de escrita. Mendes também é autor de Memórias de um Sobrevivente.

”O frio fazia tremer os dentes e tremer as pernas quando parava. O guichê caiu violentamente, me atirei contra ele. Era outro preso, o faxina: estava distribuindo água, quer dizer, enchendo nossos copos de água. Seus olhos gulosos percorreram meu corpo desnudo. Fiquei envergonhado e muito ofendido. Calei-me, toda minha capacidade de indignar-me estava agora recolhida. Só queria sobreviver.”

 
Além deles, essa antologia traz trabalhos de mais seis autores: Dona Laura, Maurício Marques, Santos da Rosa, Alessandro Buzo (autor de O Trem e Suburbano Convicto) e Erton Moraes (autor do livro O Dedo na Garganta da Idéia), além do Ridson lá do início desse texto. Mas como diz na capa do livro: TALENTOS DA ESCRITA PERIFÉRICA. Mas os talentos não param por aí. O Eduardo Dum-Dum, por exemplo, além de escritor, é rapper do grupo Facção Central e o Gato Preto rapper do grupo A Família, além de também ter integrado a turma do G.O.G. - um dos mais politizados rappers nacionais.
Por tanto, Literatura Marginal é importantíssimo para uma compreensão do que anda acontecendo nas favelas e periferias das grandes capitais do Brasil. Mas, a única coisa que fiquei chateado na elaboração dessa matéria foi em não conseguir contato com o Ferréz nem para um comentário monossilábico nem muito menos para uma orientação na época em que estava organizando a Coleção Literatura Clandestina, ou seja: no meio da arte da periferia o homem já se sente estrela. Uma pena. Mesmo assim, o “Literatura Marginal” é um excelente manifesto.  (“LITERATURA MARGINAL” organizado por Ferréz, 132 págs. Rio de Janeiro, 2005 – Agir)

 

6月28日

9. "QUANDO TERESA BRIGOU COM DEUS" de Alejandro Jodorowsky

Rapaz, sinceramente, se fosse eu quem tivesse escrito este livro provavelmente ninguém iria querer publicá-lo. O livro até que é bom, mas fiquei muito encucado com os diálogos adolescentes. Além, não sendo puritano nem nada, de estranhar muito a quantidade de cenas de sexo desnecessária.
Logo na orelha do livro tomamos o primeiro contato com o que encontraríamos nas páginas da obra: “baseando-se numa sugestiva frase de Jean Cocteau - "Cada pássaro canta melhore na sua árvore genealógica" -, Jodorowsky nos submerge num delicado relato tão cômico e surpreendente como heróico e lendário sobre a história de seus antepassados, desde seus bisavós até seus pais”. E essa observação se faz presente em todas as páginas numa reconstrução narrativa da árvore genealógica desse autor chileno que também serve para que o autor vá decifrando o sentido de sua própria existência.
O livro tem 375 páginas e mais da metade delas é composta por uma imensidão de relatos de cópulas estranhas. Se não fosse pela foto de um senhor com cara de herói bíblico na orelha do livro, eu teria certeza de que quem escreveu foi um adolescente (“O esperma branco, espesso de paixão, regando sua vulva. Deus, me ajude”). O cara só pensa e fala de sexo. De vaginas sedentas por pênis solitários. De religiosidade e pecado. De política e guerrilha. De sindicatos e bombas. E mais mulheres estranhas (“Ah, essas mulheres materiais, de mãos grandes e enrugadas, lambendo com amor de cachorra as feridas das suas crias!” – pág.35) e seres exóticos.
Tem um tal de Rebe que surge várias vezes na trama interagindo e modificando a história dos personagens. Mas tem também (o que eu achei mais significativo) várias frases inteligentes:
“Deus lhes dá má sorte. A morte alimenta-se dos otários bons” (pág.37).
“Não somos anarquistas que se rebelam contra Deus, a Ciência, o Estado, Nada disso. Esta luta só traz para o pobre uma saraivada de pauladas e balas...” (pág.121).
“Pela boca dos loucos eu me expresso!” (pág. 142).
“O melhor desse mundo é não nascer” (pág. 178).
Por várias vezes encontramos traços da cultura judaica, pois alguns personagens são judeus ou simpatizantes. Usei até o “tefilin” (espécie de fita usada nas orações pelos judeus) num conto meu chamado “O AMOR ESTÁ NO AR: TERNO, TERRÍVEL E URGENTE” que eu mandei recentemente para a revista CULT e que está no meu livro inédito “Memórias De Um Herege Compulsivo”.
Jodorowsky faz questão de deixar claro que se existe mesmo um milagre, o milagre da fé, que devemos seguir em frente, mesmo existindo um “Cristo demente que protege os loucos porque também já foi assim algum dia”. Mesmo que o autor tenha dito em várias entrevistas espalhadas pela Net que “todos os personagens, lugares e acontecimentos são reais", tudo parece surreal. Mas Jodorowsky deixa claro a sua intenção: “essa realidade é transformada e exaltada até levá-la ao mito. Nossa árvore genealógica por um lado é a armadilha que limita nossos pensamentos, emoções, desejos e a nossa vida material... e, por outro lado, é o tesouro que guarda a maior parte de nossos valores. Embora seja um romance, esse livro é um trabalho que deseja servir de exemplo para que cada leitor transforme, por meio do perdão, sua memória familiar em lenda heróica.”
Nas várias cenas bizarras descritas no livro tem um pouco de tudo. Raquel dando à luz num cemitério; Fera Seca coberta de abelhas e trepando com o próprio pai; uma leoa lançando o seu jato quente de leite para matar a fome de um velhinho; irmãs dormindo e transando juntas; um ex-czar transformado em fera “ejaculando em espasmos monumentais” no ânus de Cristina; um bailarino russo gigante metendo em Jashe e morrendo queimado em praça pública e dançando; Marina Leopoldovna, uma grande bailarina, que na verdade seria um homem; Serafim, cara-de-macaco, transando com Teresa e tendo um filho hermafrodita que, tempos depois, iria ser transformado num profeta; Teresa chamando Deus de Grande Calhorda; um sapateiro que fazia sapatos sobre medida e que não cobrava nada; manifestações populares contra o governo e depois o massacre de inocentes; piratas estuprando e matando; delatores asquerosos; um grupo de judeus sendo ridicularizados; bárbaros estuprando velhinhas (tem até uma dupla penetração) e muito mais.
Outra parte que tenho que citar aqui é o relacionamento homoerótico do poeta Benjamim e o tipógrafo Pajarito. Esse último nasceu com um só defeito: o seu fedor. E depois de um jantar onde gastaram todo o dinheiro que tinham nos bolsos foram fazer amor num terraço. Pajarito virou Benjamim de bruços e “desajeitadamente, já que não tinha nenhuma experiência, penetrou-o como sexo dilatado quase a ponto de estourar”. A cena é bizarra, não pelo fato de serem dois homens fazendo sexo, mas por Benjamim ter tido ânsia de vômito o que provocou uma crise de diarréia. Daí pra frente você pode até imaginar o que aconteceu devido ao jorro de água quente e fétida (bosta) que banhou o ventre do tipógrafo. Cena bizarra!
Não gostei muito do final, achei cansativo e melancólico, mas como disse o próprio autor: “ o mundo é como um disco: tudo vai sendo gravado e para recuperar alguma coisas, basta ter a agulha certa”. Aquilo de colocar o Jaime (quase morto), depois de tantos contratempos, numa igreja transando com Sara foi de matar. Ele com “a língua enrijecida rompendo o hímen da menina foi uma coisa de outro mundo. O final do livro ficou muito a desejar.

+ PEDIDO DESESPERADO: Alejandro Jodorowsky escreveu e dirigiu um filme chamado “El Topo” (México, 1971), uma espécie de faroeste espiritual com toques de comédia, drama e surrealismo que eu ando procurando a muito tempo. O longa conta a história de um pistoleiro (vivido pelo próprio diretor), que depois de abandonar o filho em uma vila, segue para matar quatro mestres que moram no deserto. Jodorowsky mistura Sergio Leone, pai do bangue-bangue italiano, com religião, filosofia, política e muita abstração psicodélica. Apesar disso, o filme é perfeitamente agradável para ateus e sóbrios, e não precisa nem ser levado muito a sério para ser apreciado. QUEM SOUBER ONDE POSSO ENCONTRAR ESSE FILME, POR FAVOR, MANDAR SINAL DE FUMAÇA PRA MIM.
(“QUANDO TERESA BRIGOU COM DEUS” de Alejandro Jodorowsky, 375 págs. São Paulo, 2003 – Planeta)



+ Alejandro Jodorowsky de A a Z: http://www.freakium.com/edicao9_az_jodorowsky.htm

+ Alejandro Jodorowsky em DVD: http://blog.estadao.com.br/blog/cruz/?title=alejandro_jodorowsky_em_dvd&more=1&c=1&tb=1&pb=1

8. "QUEIMADA VIVA" de Souad

Um livro emocionante sobre uma menina da Cisjordânia de nome Souad que tinha apenas dezessete anos foi queimada somente por que estava apaixonada. Tendo ficado grávida, um cunhado de nome Hussein é encarregado de executar a sentença: regá-la com gasolina e chegar-lhe fogo (coisa muito comum feita nas mulheres nos países árabes). Anos depois, Souad com ajuda de uma amiga e de uma fundação chamada “Surgir”, dá-nos a conhecer este livro espetacular. O livro abre-nos os olhos para uma prática absolutamente horrível, impensável... mas que muitas famílias utilizam para punir jovens chamadas de “charmutas” (putas). O livro mostra a nós ocidentais, como é importante a educação, o amor da família que tanto desprezamos (estou a falar em termos gerais). É daqueles livros que nos perseguem muito depois de os termos lido.
Aconselho vivamente a todos! “Queimada Viva” de Souad é um livro que grita que o amor antes do casamento é sinônimo de morte. Terrivelmente queimada, Souad sobrevive por milagre. No hospital, para onde a levam e onde se recusam a tratá-la, a própria mãe tenta assassiná-la com veneno. Hoje, muitos anos depois, Souad decide falar em nome das mulheres que, por motivos idênticos aos seus, ainda arriscam a vida. Um testemunho comovente e aterrador, mas também um apelo contra o silêncio que cobre o sofrimento e a morte de milhares de mulheres. Sobrevivente por milagre, esta mulher vai viver na Europa e vai ter que aprender a lidar, para além das cicatrizes permanentes e das mutilações, com os fantasmas do passado, que a atormentam diariamente. Souad constrói uma nova vida, num mundo para ela totalmente desconhecido, onde as mulheres são semelhantes aos homens. Na Suíça ela casa-se com Antonio e tem duas filhas, Laetitia e Nádia. Mas, a melhor parte do livro é quando ela vai reencontrar o primeiro filho, que teve que “abandonar”. Emocionante. VOU LER ESSE LIVRO NOVAMENTE, DEPOIS QUE UM AMIGO MEU TERMINAR DE LER.
(“QUEIMADA VIVA” de Souad, 236 págs. São Paulo, 2004 – Planeta)
6月27日

7. "O RETRATO DE DORIAN GRAY" de Oscar Wilde

O romance conta a história fictícia de um jovem chamado Dorian Gray numa Inglaterra aristocrática, hipócrita e hedonista do século XIX, que se torna modelo para um quadro do pintor Basílio. Gray tornou-se não apenas modelo pela sua beleza física, mas também se tornou uma fonte de inspiração para, implicitamente no texto com forte teor homoerótico, uma paixão platônica por parte do pintor. Aí surge a figura de Lord Henry, um aristocrata muito cínico e típico da época e grande amigo de Basílio, que conhece Gray e o seduz para sua visão de mundo, onde o único propósito que vale a pena ser perseguido é o da beleza e do prazer. No entanto, segundo Henry, a beleza é efêmera (coisa que eu também concordo). Ao ver-se em seu retrato finalmente pronto, Gray exaspera-se: "Eu irei ficando velho, feio, horrível. Mas este retrato se conservará eternamente jovem. Nele, nunca serei mais idoso do que neste dia de junho... Se fosse o contrário! Se eu pudesse ser sempre moço, se o quadro envelhecesse!... Por isso, por esse milagre eu daria tudo! Sim, não há no mundo o que eu não estivesse pronto a dar em troca. Daria até a alma!".
E de fato, seu desejo se realiza e Gray dedica sua vida a perseguir o tal ideal de Lord Henry. No entanto, Gray acaba se relacionando com uma jovem atriz de nome Sibyl, ou melhor, apaixona-se pela artificialidade com que ela encarna as suas personagens no palco do teatro. Numa noite, percebendo que a menina não tem nenhum talento, ele a abandona acarretando o banal suicídio da atriz. A partir daí Gray mantém uma secreta relação de sadismo e masoquismo pelo quadro e a estória passa a ficar mais interessante. Basílio torna-se mais uma vítima da loucura de Gray e é assassinado por ele. E, antes que alguém diga que eu vou contar o livro todo, acho melhor você pegá-lo e conferir. Apesar de não ser, segundo alguns, do ponto de vista literário uma grande obra – tanto que em muitas faculdades alguns professores antiquados não gostam de citar essa obra de Wilde como um exemplo de boa literatura, mas preferem Paulo Coelho (coisa que aconteceu comigo) – com críticas ruins da época do lançamento até os dias de hoje, o livro tornou-se um símbolo da juventude intelectual "decadente" da época e de suas críticas à cultura vitoriana, além de ter despertado grande polêmica em relação ao seu conteúdo homoerótico (o autor, Oscar Wilde, era homossexual e foi preso e condenado por causa disso – onde seu nome se tornaria sinônimo de abjeção).
O próprio Wilde foi apontado como o pai do decadentismo na Inglaterra, coisa que ele sempre negou.

Quando do julgamento de Wilde algumas partes deste livro foram usadas contra ele – mas eu não consegui encontrar partes do livro que pudessem mostrar a homossexualidade do seu autor. Recentemente, o livro tem sido descrito como "um dos clássicos modernos da Literatura Ocidental". A BBC classificou a obra como 118 na sua lista de "Big Read", uma lista com os 200 romances mais populares. Afinal, o livro é mais importante que a polêmica que gerou, como Oscar Wilde escreveu em seu prefácio: "Não existe livro moral ou amoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo." UM LIVRO MARAVILHOSO. P.S. Sobre o túmulo de Wilde foi erguido um monumento, como último reconhecimento a um grande escritor que soubera enfrentar a moral de seu tempo. (“O RETRATO DE DORIAN GRAY” de Oscar Wilde, 256 págs. 1996 – Nova Cultural)

 

* Recomendo também a revista CULT (junho2007) que trouxe uma matéria de capa com o Wilde: http://revistacult.uol.com.br/website/news.asp?edtCode=80D6EB47-3DC7-4E32-8C2E-950A8017D51C&nwsCode=011CA546-27E8-43D7-8372-FD07A295AF1A

6. "O VELHO E O MAR" de Ernest Hemingway

Vou logo dizendo que existe duas atitudes a tomar em relação ao excelente Hemingway (1896-1961), cuja obra – graças a Deus – foi relançada no Brasil pela Bertrand Brasil. A primeira é participar do folclore cada vez mais em torno de seu nome. A segunda, muito mais proveitosa, é ler os cinco melhores livros da vasta obra que o homem produziu. No primeiro caso, você pode, por exemplo, se divertir com as polêmicas que circulam em muitos sites na internet produzidas por acadêmicos, professores e freudianos desocupados, loucos para denegrir ora a sua masculinidade (encontrei até um certo professor universitário que escreveu que “as viadagens de Hemingway foram uma bandeira para os movimentos gays em todo o mundo” – que estúpido), ora a sua literatura (coisa de quem não produz nada – nem mesmo um artigo para o seu blog que ninguém lê). Ainda no item folclore, há os curiosos “Festivais Hemingway” ao redor do mundo, o mais famoso fica na Flórida, onde fãs do escritor realizam anualmente um concurso de rimas obscenas e uma gincana que é vencida por aquele que fisgar a maior quantidade de peixe-espada.
“O Velho e o Mar” conta a dramática estória de um velho pescador chamado Santiago que há 84 dias não fisga um único peixe, mas que ainda guarda nos olhos azuis o desejo de pescar o maior deles, qual seja, o verdadeiro sentido da vida. A luta entre Santiago – que durante este tempo se alimenta do que consegue apanhar – e o peixe testa os limites de resistência de ambos. Mas, finalmente, o velho pescador é bem sucedido. Amarra o espécime ao barco e viaja para terra. Santiago está disposto a mostrar a todos que ainda está vivo, que ainda consegue ser bom na sua profissão. “A vela fora remendada em vários pontos com velhos sacos de farinha e, assim enrolada, parecia a bandeira de uma derrota permanente”, começa Hemingway o seu relato poético, em jeito de profecia.
O pescador, cansado e esfomeado, ainda não ganhou a guerra. Mais pesada e depois de arrastada para uma rota desconhecida, a embarcação está mais lenta na viagem de regresso. Atraídos pelo sangue da conquista de Santiago, os tubarões atacam à vez, transformando o peixe em esqueleto. O velho vai ganhando batalhas, mas sabe que a derrota é iminente. Porque o sangue atrai mais e mais tubarões vorazes. Esgotado, Santiago chega à praia de onde partiu. Quebrado por dentro, depois de cuspir um líquido estranho. Vai para o pobre casebre onde vive, derrotado. Com o amanhecer, outros pescadores vêem o barco atracado, com o esqueleto do peixe amarrado num dos lados. O comprimento do peixe traz ao velho a admiração de todos.
“O Velho e o Mar”, publicado em 1952, garantiu a Ernest Hemingway o Prêmio Pulitzer. Dois anos mais tarde, o escritor norte-americano recebeu o Nobel da Literatura. Grande clássico da ficção contemporânea, é um dos livros que nos fica para sempre. Que nunca esquecemos. Uma obra perfeita em todos os seus momentos. Que podemos interpretar de maneira diferente. Talvez por isso, foi agora reeditado pela Livros do Brasil. Em boa hora, para quem nunca o leu.
O livro é lindo. E para aqueles que querem conferir os cinco melhores livros do autor, recomendo: “Contos Vols. I e II”, “O Sol Também se Levanta”, “Adeus às Armas” e, claro, “O Velho e o Mar”.  (“O VELHO E O MAR” de Ernest Hemingway, 128 págs. Rio de Janeiro, 2000 – Bertrand Brasil)
6月25日

5. "CADEIA DE COMANDO" de Seymour M. Hersh

Nem só com Michael Moore se faz oposição nos Estados Unidos, ao Bush e sua guerra imbecil no Iraque. Nem só com os textos da Literatura Clandestina questionamos a nossa sociedade. Hersh, repórter do jornal New York Times e da revista New Yorker, também está nesta briga, além da LC, é claro! O livro “Cadeia de Comando – A guerra de Bush do 11 de setembro às torturas de Abu Ghraib” é sobre os bastidores do conflito. E para quem pensa que o livro é chato se engana completamente, pois esses conflitos armados é um tema que o autor conhece muito bem.
Há mais de 35 anos, em 1969, Hersh ganhou o Prêmio Pulitzer por uma reportagem em que relatou o massacre de Mi Lai, no Vietnã. Neste último trabalho, o autor vai além do relato das torturas em Abu Ghraib, denunciadas por ele. Expõe o ataque de 11 de setembro, que levou à guerra, passa pela invasão do Afeganistão e pelo “pretexto” utilizado por Bush de que o Iraque possuía armas químicas. “Hersh destaca-se praticamente sozinho num mundo em que programas de entrevistas estridentes e colunistas vaidosos ofuscam os repórteres à moda antiga, aqueles que correm o mundo em busca da notícia, e em que a maioria das ‘reportagens de investigação’ consiste numa coleta de vazamentos cuidadosamente fornecidos”, comentou o jornal The Independent sobre o jornalista. (“CADEIA DE COMANDO” de Seymour M. Hersh, 398 págs. Rio de Janeiro, 2004 – Ediouro)

4. "TRIBADES GALANTES, FANCHONOS MILITANTES" de Amílcar Torrão Filho

Desde que o mundo é mundo, homens amam homens e mulheres amam mulheres. E essa história de dizer que tudo isso é “viadagem” seria uma total manifestação de ignorância. Nesse livro de Torrão Filho, historiador brasileiro, o autor conta a vida, os escândalos, os amores e as conquistas de vários homossexuais sobre os quais há relatos e provas, com riqueza de fatos pouco conhecidos.

O livro é excelente e todos estão lá. De Júlio César a Adriano, os cavaleiros e clérigos, de Leonardo Da Vinci aos revolucionários do Renascimento, de Byron a Lorca, de índios a militares, Oscar Wilde a Joana D´Arc. No tema escolhido, na maneira sensível de tratar o objeto, na recusa de estereótipos, na seleção dos personagens, na interpretação histórica da temática, tudo valeu a pena.

E, vale dizer, é um livro muitíssimo bem escrito, elegante e cuidadoso, como também declarou o professor e historiador Ronaldo Vainfas na apresentação. Compre o livro sem os olhos virados e sem preconceitos que estamos acostumados e comprove. Uma excelente obra. (“TRÍBADES GALANTES, FANCHONOS MILITANTES” de Amílcar Torrão Filho, 294 págs. São Paulo, 2000 – Edições GLS)

3. "NOVA YORK É AQUI" de Nelson Motta

O livro é uma verdadeira viagem. Nele, o leitor, além de ficar informado sobre os melhores hotéis, bares, restaurantes, cafés, lojas, passeios e roteiros culturais, tem uma noção de como funciona a cidade que não pára, na visão de um brasileiro que faz questão de dizer que não é um esperto em Nova Iorque, apenas um atento observador, ou, como prefere dizer - um "olho vivo e faro fino".

“Nova York é Aqui - Manhattan de Cabo a Rabo” é uma verdadeira crônica dos bairros de Nova Iorque. Nelson Mota também não poupa críticas quando tem que falar do péssimo humor dos nova iorquinos (muda de acordo com as estações do ano), o consumismo exacerbado, a comida de qualidade duvidosa e a breguisse dos cassinos luxuosos. Narra algumas aventuras, fala de raça, religião, bandidagem, drogas, submundo, cinema, noite, sexo, jogos, poder, off-Broadway, liberdade, comida, política, música, Natal, tudo num texto leve e divertido, de alguém de não se considera o "sabe tudo". Como bem define o amigo e escritor Zuenir Ventura no prefácio do livro, Nelson "não finge que é new yorker, apesar da intimidade com o que chama de new-yorkicidade. É um estrangeiro, mas sem deslumbramento caipira-chic. Não tem vergonha do sotaque com que olha a cidade". Realmente, o livro contém histórias e informações precisas que devem ser lidas até pelos próprios nativos, que se escondem nos cinemas, em pleno verão, enquanto a turistada se diverte com os shows de graça no Central Park. (“NOVA YORK É AQUI” de Nelson Motta, 216 págs. Rio de Janeiro, 1997 – Objetiva)

2. "NUNCA DESISTA DE SEUS SONHOS" de Augusto Cury

Querido leitor, infelizmente você não verá o fim do período de bons livros nas estantes das livrarias. Para evitar o eufemismo dos fracos: você não viverá até o fim da literatura por causa de programas imbecis na TV. Consultei todos os luminares, o nodo lunar, as casas dos planetas, os ângulos, todas as configurações astrais e a resposta é a mesma: AINDA EXISE VIDA NAS ESTANTES.

Seja qual for seu sexo, raça, religião ou posição social, não há saída. Conformado ou revoltado, tome as providências triviais: faça seu testamento, reconcilie- se com os inimigos (sobretudo da mídia), pague suas dívidas e leia tudo que chegar nas suas mãos. Acreditando que no mundo literário tudo é possível, tudo lhe será mais leve. Ele será melhor ou pior, mas será diferente. Não pense em coisas negativas – tais como a permanência da natureza, independentemente de seu desaparecimento.

Console-se com o fato de que a televisão continuará perpetuamente alienando a população. E talvez você – ou seu fantasma – apareça nela episodicamente. Além disso, só morrerão os que lêem horóscopos.

Porém, ele diz que não escreve literatura de auto-ajuda, mas esse livro é muito mais que isso. Com mais de um milhão de livros vendidos sobre temas como crescimento pessoal, inteligência e qualidade de vida, o psiquiatra Augusto Cury debruça-se aqui sobre nossa capacidade de sonhar e o quanto ela é fundamental na realização de nossos projetos de vida.

Os sonhos são como uma bússola, indicando os caminhos que seguiremos e as metas que queremos alcançar. São eles que nos impulsionam, nos fortalecem e nos permitem crescer. Se os sonhos são pequenos, nossas possibilidades de sucesso também serão limitadas. Desistir dos sonhos é abrir mão da felicidade porque quem não persegue seus objetivos está condenado a fracassar 100 % das vezes. Analisando a trajetória vitoriosa de grandes sonhadores, como Jesus Cristo, Abraão Lincoln e Martin Luther King, Cury nos faz repensar nossa vida e nos inspira a não deixar nossos sonhos morrerem. O livro é muito interessante. Muito melhor do que toda a baboseira que o imortal Paulo Coelho e que o Lair Ribeiro andam escrevendo. (“NUNCA DESISTA DE SEUS SONHOS” de Augusto Cury, 160 págs. Rio de Janeiro, 9ª edição, 2004 – Sextante)

1. "ELES E EU" de Luiz Carlos Marciel e Angela Chaves

Aproveitando que o “rei” proibiu a sua recente biografia e que por causa disso o livro está vendendo muito mais do que carnês para a compra de uma cobertura no céu pela Igreja Universal, eu vou logo dizendo que quando eu for rico e famoso vou exigir também a minha biografia não-autorizada, com direito às revelações incomensuráveis e inconfessáveis retiradas das páginas da Caras.  Até parece que vou me dá esse trabalho! Mas, com tudo isso, quero fazer reverência ao livro de memórias do ex-marido da Elis, o Ronaldo Bôscoli, escrito por Luiz Carlos Marciel e Angela Chaves.

É um livro muito legal (“sem nenhum remorso, sem qualquer rancor”), independente da “rasgação de seda” em cima do biografado. Bôscoli (em tempos remotos) foi o porta-voz de uma tendência musical que surgia: a Bossa Nova. No livro, ele aparece participando de todo o movimento, traçando um panorama humano e artístico dos grandes nomes da música popular brasileira; o seu difícil relacionamento com Elis; a sua infância no internado de São José; algumas fotos com os filhos (muito legal ter visto o João Marcelo menino, pois eu adoro o cara); o depoimento dele dizendo que tinha tudo para ser bicha (muito hilário!); sobre Nelson Rodrigues; os ciúmes por causa do envolvimento da Elis com Pelé; a primeira capa de disco da Bossa Nova; Norma Bengell fazendo show na PUC; o sucesso de gente como Juca Chaves, Sylvinha Telles, Zimbo Trio, Os Cariocas, Trio Irakitan, Baden Powel; o preconceito da sociedade contra Elza Soares e as transas com Nara Leão.

Estão presentes também as suas deliciosas histórias com Jobim, Vinícius, Roberto Carlos, Sérgio Mendes, Wilson Simonal (vale muito a pena conferir o depoimento sobre o Simonal), Roberto Menescal, o chato do João Gilberto, Maysa e outros personagens da noite carioca. Além de coisas sobre Xuxa, Tim Maia, Telê Santana, Paulo Coelho, Nelson Motta, Milton Nascimento, Bethânia, Lúcio Alves, Juscelino Kubitschek, João Goulart, João Donato, Jô Soares, Flávio Cavalcanti, Fagner, Fafá de Belém, Fábio Jr., Erasmo, Emilio Santiago, Elizete Cardoso, Caymmi, Djavan, Danuza Leão, Caetano, Boni (da Globo) e o namoro com a atriz Joana Fomm. Tem ainda algumas fotos bem bacanas de Ari Barroso com os “moços da Bossa Nova”, Marcos Vale novinho, com Miéle e do casamento com Elis. Boscoli também cita Frank Sinatra, Nat King Cole, Johnny Mathias e Julio Iglesias – todos desmistificados por seu olhar de jornalista e observador da história que se construía.

Em tempo: ele é autor de "Canção que morre no ar” (com Carlos Lyra), "O barquinho" (com Roberto Menescal), entre outras músicas que ficaram na história e estão presentes no repertório de grandes intérpretes. O cara também foi cunhado de Vinicius – pode imaginar isso? (“ELES E EU – MEMÓRIAS DE RONALDO BÔSCOLI” de Luiz Carlos Marciel e Angela Chaves, 286 págs. Rio de Janeiro, 1994 – Nova Fronteira)

6月22日

APRESENTAÇÃO

“Um pingo de chuva estourou na pedra de gelo do meu whisky. Eu lembrei de ti que sempre quer botar pingo de I em Y. Que é que há? Parece até que eu sou um livro mal escrito e que você é uma caneta cor vermelha rasurando o que não aceita nem consegue decifrar...”. Essa letra inteligente é do compositor baiano Maurício Baia que, em tempos de celebridades transando na praia, políticos recebendo propinas em Brasília e cenas de violência gratuita pela TV, grita que ainda vale a pena fazer (cu)ltura nesse país de merda, onde nossas crianças crescem vendo cadáveres nas portas de suas casas e esquecem, cada vez mais cedo, dos livros.

Mas como vivemos nesse reino de utopias, num governo onde o partido do próprio presidente usa cueca como casa de câmbio, o fato do povo não dá muito valor à sua cultura, na qual vemos políticos concedendo-se um bom aumento em cima dos seus já polpudos ganhos, enquanto professores recebem salários miseráveis e artistas fazem propaganda de bebida alcoólica num momento onde todos os médicos, pais e responsáveis lutam contra a dependência química de outros milhares – mas isso tudo parece uma coisa menos relevante e feito de matéria ainda mais ordinária.

Prefiro ficar aqui no meu quarto na companhia do poeta alemão Heinrich Heine que cunhou, no século XIX, a seguinte frase a respeito da intolerância intelectual: “Os que queimam livros acabam queimando homens”. Meu amigo Heine já alertava para a existência de um caminho natural da censura ao pensamento, que levaria à barbárie. E o que é que estamos presenciando todos os dias pela TV? O que tudo indica é que hoje os artistas, outrora seres cheios de expressão e prestígio, com raras exceções, se transformaram em palhaços a serviço de uma sociedade ignorante e consumista.  

Em matéria para a revista Veja (16/05/07) o jornalista Jerônimo Teixeira deixou bem claro a sua opinião com relação à atual cretinice literária que assola o nosso país: “As bibliotecas podem ser tanto fonte de prazer quanto de angústia. Estão lá todos os livros que você não leu, e cada lombada parece olhar em sua direção com uma censura silenciosa. Reforçando essa cobrança dos séculos, há uma pressão social sobre o leitor. Dependendo da roda que se freqüenta, pode ser embaraçoso admitir que não se leu um romance de Tolstoi ou de Machado de Assis. Mentir, nesses casos, é uma alternativa arriscada. E se você for convocado a dar uma opinião “informada” sobre um livro que nunca chegou nem a folhear?”. Professores de pré-vestibulares sabem muito bem o que é isso.   

A exigência de ler tudo de todos é, claro, uma coisa absolutamente irreal. Dessa forma, recomendo muita parcimônia ao mergulhar nas estantes das bibliotecas e/ou livrarias: a arte de “não” ler é tão importante quanto a arte de “ler direito”. Só assim é possível selecionar no meio da mediocridade que predomina o que realmente vale a pena ser lido. Ler pela metade, saltar páginas e até opinar sobre um livro que nunca se abriu é o que mais (erroneamente) impera no momento.

Porém, mesmo não gostando muito do tipo de literatura que a Lya Luft faz, tenho que dá o braço a torcer quando ela diz que “os universitários de hoje não sabem ler e também não sabem compreender um texto simples, muito menos escrever de forma coerente”. Luft, no seu texto “A educação possível” (Veja, 23/05/07), afirmou que esses novos universitários são incapazes de ter um pensamento independente e de aprender qualquer matéria. Ela, de forma admirável (coisa não muito comum entre professores que “se acham”) confessou ser de família de professores universitários, que durante dez anos foi titular de Lingüística em uma faculdade particular, mas, com o desgosto pela profissão, acabou abandonando, embora tenha também confessado gostar muito mais do contato com os alunos do que com as trocas de informações com os colegas de profissão. Concordo plenamente! Aí, nesse ponto do texto, ela descreve a sua dificuldade de se enquadrar nas chatíssimas e inócuas reuniões de departamento, com o caderno de chamada, com o currículo, com as notas encomendadas e também com o desalento – coisa que eu também detestava.

Se nos anos 70 a Luft já recebia na universidade jovens que mal conseguiam articular frases coerentes, muito menos escrevê-las, como ela mesmo citou, imagina se eu iria continuar dando aulas para esses jovens de hoje que fazem faculdades, alguns com sacrifício, mas infelizmente sem conteúdo algum. Muitos professores até podem me chamar de covarde por não querer mais nada com a educação, mas tenho muita vergonha de ter sido professor nesse país de faz-de-conta. Sou brasileiro e já desisti há muito tempo!     

Porém, minha contribuição nesse mar de melancolia é estritamente pessoal e solitária. Estou aqui firme e forte (fora das salas de aula) para subverter o dito normal. Vou contribuir com meus textos e minhas resenhas nessa economia que, dizem os parlamentares, está a florescer, mas a nossa cultura, caros senhores, anda mirrada, murchada e f... Não estou aqui interessado em embelezar os livros escolhidos para as minhas resenhas nem me vangloriar de alguns poucos textos que (sem nenhum patrocínio) consegui editar, mas tampouco estou aqui para capturá-los e catapultá-los em ângulos desfavoráveis, pelo contrário. Fazer uma resenha de um livro é como tirar uma foto do seu autor e depois dar um testemunho sobre a sua mortalidade e sobre a sua vulnerabilidade. Meu pecadinho discreto aqui, seja talvez, a indiscrição. Adoro contradizer e discordar de certos autores. Desnudar suas almas como os seus próprios “tabuleiros de jogos lingüísticos” (tirei essa da Calcanhotto).

Aí alguém pode dizer que devo ser um leitor ranzinza de longas datas. Pelo contrário, passei a ter um imenso gosto pela leitura só depois que terminei a faculdade de Letras (não lembro de ter lido um único livro inteiro no período do curso, aliás, nem lembro se teve algum livro trabalhado em sala). Mas eu concordo com o excelente colunista Stephen Kanitz que disse: “Se almejarmos somente a média, seremos medíocres. Se almejarmos a excelência, seremos excelentes”.

Minha graduação em Letras dava muita ênfase às teorias que descobri (um pouco mais tarde) não servirem para nada. Mas foi só assim que conheci Milton Santros, Forcault, Camilo Castelo Branco, Frei Betto, Leonardo Boff, Gilberto Freire, Patrícia Highsmith e outros. O que mais me chamou a atenção foi à escassez de conteúdo de literatura e debates. Lembro uma vez de ter sido ridicularizado pela professora de Teoria Literária e demais colegas de turma por ter dito gostar muito mais de Nelson Rodrigues e Hilda Hilst do que do Machado de Assis (aliás, ninguém nunca tinha ouvido falar da Hilst, inclusive a própria professora). Aprendi na faculdade a ter uma opinião legitimada sobre livros, mesmo sem tê-los lido. Deprimente o que aprendemos nas faculdades.

Recentemente, os fatos que ocorreram na USP representam o paradoxo em que as universidades brasileiras vivem. O espírito aberto para debates que se espera de uma comunidade acadêmica, supostamente tida como mais culta, é substituída por idéia fixas, ideológicas e corporativistas. De um lado estudantes mimados (alguns) que acham que podem tudo pelo fato de serem universitários e do outro, reitores e administradores sem um pingo de visão de mudança e amor à educação. Como é possível esperar produção cientifica de um sistema medíocre e idiotizante que se recusa a questionar e ser questionado? Desisto de ficar batendo na mesma tecla, quando o assunto é educação. Sou agora um ex-professor que nunca acreditou na catequização, mas que ainda acredita que a força dos livros pode mudar o seu sentido de mundo – contanto que você, pelo menos, se dê o trabalho de abrir um.     

Não me envergonho aqui de confessar a minha total ignorância, por exemplo, pela literatura russa. Trata-se de uma opinião para lá de discutível para quem já leu Dostoievski várias vezes, não entendeu nada e largou o livro pela metade; tentou ler novamente e dessa vez largou nas primeiras páginas; e mais tarde, meio com remorsos, leu aos pedaços e apenas folheando – mas toda opinião literária tem sua dose de capricho pessoal. Hoje os professores nas faculdades estimulam os alunos a conhecer os livros pelas críticas medonhas em revistas “especializadas”, por resumos medíocres pela internet, pelo que os amigos falam, pela posição do livro em catálogos e bibliotecas. Claro que mesmo antes de entrar na faculdade eu já sabia quem era Dostoievski. Já tinha até uma noção exata da importância do autor de Crime e Castigo, pois todo mundo carrega consigo um catálogo pessoal – mesmo que não tenha lido uma única linha.

Esse espaço não é mais um blog de “literatura especializada” que tem como função minimizar o trabalho dos autores e depreciar suas obras. Trata-se de um espaço para EU EXPOR AS MINHAS IMPRESSÕES sobre alguns livros da minha estante (livros de viagem, de cozinha, de auto-ajuda, manuais, biografias, antologias, livros para organismos públicos, livros de organismos orgânicos, novelas baratas, clássicos de autores desconhecidos, de autores consagrados, de autores perturbados, de autores neuróticos... enfim, quase tudo que vale a pena ser lido – ou jogados no limbo do ostracismo), pois alguns veículos da imprensa “especializada” parecem querer tornar público que os escritores já não escrevem mais os seus livros. E como muita gente tem enviado pedidos desesperados e desesperadores para a minha caixa de mensagens para que eu cite opiniões (coisa perigosa) sobre determinados livros, então vou colocar a mão na massa ao som de Caetano: “Mas os livros que em nossa vida entraram são como a radiação de um corpo negro apontando pra a expansão do Universo, porque a frase, o conceito, o enredo, o verso (e, sem dúvida, sobretudo o verso) é o que pode lançar mundos no mundo”. Por tanto, sejam bem-vindos!

ELENILSON NASCIMENTO

escritor