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7月30日 LITERATURA CLANDESTINAAcreditando muito mais na literatura do que na pequenez (prefiro colocar essa palavra) dos seres humanos, principalmente na pequenez dessa geração de políticos photoshop´s – daquela da mesma linhagem “Lulinha Paz e Amor” – de cabelinhos cortados, barbas aparadas, carecas bem enceradas, dentes clareados e um discurso vazio. Por isso mesmo, estamos tentando sair da “clandestinidade” e completamos mais uma etapa ainda gozando de uma possível rebeldia, ainda que sempre estejamos superando as regras e as flâmulas da “ordem e do progresso”. E num país em que o muro ainda não sai das mãos de ferro, nós ainda somos um pouco dessa afronta e, de relance, olhamos o que é feito da nossa vida sem cultura ou, o que é pior, com cultura em sutura das bandagens que nos apontam. Dessa forma, informamos que a LITERATURA CLANDESTINA – mais uma vez – já está de casa nova. Com certeza teremos muitas histórias pra criticar, muitos amigos pra conquistar e um carinho muito grande por todos os nossos leitores (pelo menos os educados), esse espaço pretende funcionar como um fórum complementar de fomentação de idéias (e ideais) para que os leitores também possam comentar o dia-a-dia da nossa imprensa e da literatura, tendo acesso a uma informação que a grande mídia continua monopolizando e se recusando a divulgar. Então, caros leitores, sejam bem-vindos ao novo espaço: 3月11日 Polêmica+ ENQUETE COM TEXTO DE ELENILSON SOBRE A REVISTA VEJA MOBILIZA INTERNAUTAS – CLIQUE AQUI.12月26日 ELENILSON, UM BELO MOSAICO LITERÁRIOElenilson Nascimento é um feroz paradoxo de Almodóvar (em suas coes), é a continuação do próprio Machado de Assis em sua contratura literária na fase realista pós-Carolina. A sua literatura pulsa sobre uma realidade cada vez mais arrogante, como no poema “Palíndromos” que recentemente foi selecionado para integrar a “Antologia de Poetas Contemporâneos” e, mesmo que a saga dê na condição humana, ele e a sua verve farão um paralelo anacrônico sobre o verbete da falha humana, e assim dissecando, ele vai aliciando o verbo como se o verbo fosse o paralelo da própria condição humana inumana. Leia a matéria aqui: CLIQUE. 9月3日 PublicidadeAUTOR BAIANO FALA SOBRE ESCREVER UM THRILLER A RESPEITO DA MADONNA Por Rodrigo Oliveira
Quando os jornalistas brasileiros reclamam – como o fazem com freqüência – sobre o "elitismo" da literatura contemporânea, a honrosa exceção invariavelmente citada é a ficção do autor baiano ELENILSON NASCIMENTO. Prova dessa ousadia são os textos publicados no portal Literatura Clandestina e na sua coluna semanal no jornal O Rebate. O mérito que distingue as suas obras tem sido casar seriedade e ambição literárias com um andamento mais comumente associado à ficção comercial (ou talvez ele não queira apenas vender livros e sim, alimentar mentes). Elenilson é como um “novato-veterano” dos livros, juntando as engrenagens de seus enredos com impecável meticulosidade. Mesmo quando o pêndulo ameaçador de seus textos tende a engendrar ansiedade, a credibilidade de seu artesanato – a inexorabilidade de seu próximo movimento – infunde confiança. O resultado, para o leitor, é uma espécie de tensão serena. O tique-taque que ressoa pelos parágrafos é certamente a contagem regressiva para algum terrível desastre, mas também o som de uma máquina perfeitamente calibrada, funcionando exatamente como deveria.
Os trechos abaixo foram pinçados de uma entrevista ao jornal Boca de Brasa, onde o autor fala sobre o livro “Diálogos Inesperados Sobre Dificuldades Domadas” (lançado em 2005), onde o conto “O Ósculo Molhado da Madonna” gerou certa polêmica na imprensa baiana.
R. Oliveira - Porque escrever um conto sobre a cantora americana Madonna?
Elenilson Nascimento – E porque eu não deveria fazê-lo? Madonna é uma das personalidades mais ricas do show bis que empregou seu talento para difundir suas fantasias eróticas sob formas de livro de fotografias e poemas (que ninguém lembrou de ler) sobre sexualidade e foi literalmente banida da lista do bom gosto dos “moralmente afetados”. Contudo, durante essas últimas duas décadas, ela se transformou em tema do comportamento humano nas universidades americanas, entrevistada pelo escritor Norman Mailer e, agora, sendo homenageada num conto nesse meu livro.
R. Oliveira - Porque você acha que os intelectuais baianos criticaram tanto esse seu trabalho? Elenilson Nascimento – Nunca houve ninguém como Madonna. No topo do Everest do show desde 83, a mais “clandestina” dos “clandestinos”, chegou lá. Madonna é pura e simplesmente, a mulher mais famosa do mundo. Ela se intitula uma “viciada em trabalho”, a rebelde cuja a sagacidade financeira é tão grande que o NGB Night News considerou-a uma “indústria em crescimento”, e a revista americana de absoluta credibilidade, a Forbes, a proclamou como a “executiva mais competente da América”. Madonna não é mais moda. A moda é a própria Madonna. Porém, depois de provar para o mundo o seu talento, ela continua sendo alvo de estudos sérios em universidades e dezenas de outras instituições de estudo superior. Madonna serve de pólvora para um tiro em direção às universidades americanas. Os artistas (principalmente os clandestinos) são os espelhos da sociedade à qual pertencem e isso ainda incomoda muita gente. Admiro e respeito muito a Madonna por tudo que ela já fez pela liberdade de expressão. Não estou nem aí para os intelectuais baianos. Eles não pagam as minhas contas.
R. Oliveira - Do que fala esse conto?
Elenilson Nascimento – É uma história bem simples, escrita de fã para outros fãs se divertirem. É a história de um cara louco pela Madonna que em 1993, quando a cantora esteve aqui no Brasil para seu show, faz de tudo para invadir o hotel Caesar Park e acaba sendo preso, justamente no dia do show. Então, ele consegue convencer o delegado que nasceu para assistir aquele espetáculo, mas na hora H, na frente do palco, acontece uma coisa e ele não vê nem a botinha preta da Madonna. Muito tempo depois, ele acaba virando um autor de histórias de terror e alguém lá dos USA adora o livro do cara e quer porque quer fazer uma peça em cima do livro. Ele acaba tomando 5 comprimidos de Zolof e embarcando para a América. No dia da estréia da tal peça, quem aparece nos bastidores?
R. Oliveira - Mas isso foi o motivo das pessoas criticarem você?
Elenilson Nascimento – O motivo principal foi eu ter exaltado tanto a Madonna num livro. Infelizmente, para alguns, Madonna ainda é sinônimo de mau gosto. Mesmo com toda a grana que ela já ganhou por seus trabalhos nesses anos todos. Só tenho a lamentar, pois muitos no Brasil têm a mania de minimizar o trabalho dos outros.
R. Oliveira - Você se arrepende de ter escrito o conto?
Elenilson Nascimento – De forma alguma. Madonna entrou para a história por ter um atributo muito mais sedutor, que permite a ela dar quantas viradas forem necessárias: TALENTO! E a beleza sem ele apodrece, perde o sentido em médio prazo. Madonna ainda tem muito que amadurecer e permanecer. E eu ainda tenho muito que aprender com ela.
fonte: Rodrigo Oliveira/Boca de Brasa, agosto/2007 (“DIÁLOGOS INESPERADOS SOBRE DIFICULDADES DOMADAS – Histórias Inacabadas em Encontros e Despedidas” de Elenilson Nascimento e Anna Carvalho, contos e crônicas, 195 págs. 2005 - CBJE). Imagem: reprodução.
8月23日 22. A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER
Por Elenilson Nascimento Eu já estava entediado lendo esse livro (mesmo com o título paradoxalmente engendrado) de Milan Kundera, quando me deparei com o seguinte: “Existem cada vez mais universidades e cada vez mais estudantes. Para desenrolar seus pergaminhos é preciso que eles encontrem temas de dissertação. Existe um número infinito de temas pois pode-se falar sobre tudo e sobre nada. Pilhas de papel amarelado se acumulam nos arquivos que são mais tristes do que os cemitérios porque neles não vamos nem mesmo no dia de Finados. A cultura desaparece numa multidão de produções, numa avalanche de sinais, na loucura da quantidade. Creia-me: um só livro proibido em seu antigo país significa muito mais do que os milhares de vocábulos cuspidos pelas nossas universidades”. Pronto, isso foi o ponto de partida para eu me jogar (prestando mais atenção) e arriscar galgar tortuosos degraus da escada que me conduziria ao patamar da escrita arrevesada que (imaginava eu) compunha o confuso triângulo amoroso entre o cirurgião mulherengo Tomas (que tinha como hábito urinar na pia), a fotografa romântica Tereza e a pintora modernosa Sabina. “A Insustentável Leveza do Ser” não é o tipo de livro que fica por muito tempo ao lado da minha cabeceira, mas tenho que admitir que por alguns momentos ele me fez flutuar sensivelmente entre os discursos filosóficos de Confúcio, Pascal ou até mesmo de Nietzsche – além das críticas ao filho de Stalin que, quando preso, morreu eletrocutado numa cerca de alta-tensão por não querer limpar as latrinas que ele próprio sujava – e também a mera narrativa amorosa de romances de quinta categoria de bancas de revistas. Mas, acima de tudo, as idéias defendidas por Kundera contidas nos sete capítulos (muitas vezes sem caracterização alguma) sobre relacionamentos amorosos, me deixaram muito confuso e, por alguma razão, me fez lembrar do filme “A Casa do Lago” (estrelado por Sandra Bullock e Keanu Reeves) com a paciente “arte” da espera. Porém, o próprio autor explica dentro do livro: “As perguntas realmente sérias são aquelas – e somente aquelas – que uma criança pode formular”. Acho que por mais que Kundera tenha tentado dá um nó em minha cabeça sua mensagem foi transpassada para o meu subconsciente, tanto que acabei usando um pensamento dele no meu novo romance “Os Enforcados” que atualmente ando trabalhando, quando Kundera diz que “um livro aberto era como um sinal de reconhecimento de uma fraternidade universal”. CHATEAÇÃO ROMÂNTICA – Aplaudido por uns, criticado por outros, o livro se apresenta cheio de interrogações num enredo não-linear e de forte teor psicológico. E, antes de qualquer coisa, apresenta também uma imensa lista de devaneios e sentimentos contraditórios, de dar sem saber o que pedir em troca, de infelicidades indefinidas, de vazios mentais cheios de nada, de uma estranha forma de amar traindo, de viver num limbo constante entre a felicidade desmesurada e o precipício. Uma chateação romântica repleta de frases dúbias: “A idéia de que embaixo Franz é um homem adulto, e em cima um recém-nascido que mama – e, (...) nunca mais lhe dará seu seio como uma cadela à sua cria, hoje é a última vez, irrevogavelmente a última!”. Mas, ao mesmo tempo, o autor consegue se superar: “Se o eterno retorno é o mais pesado dos fardos, nossas vidas, sobre esse pano de fundo, podem aparecer e toda a sua esplêndida leveza”. E respirei fundo. Respirei num compasso marcado pelo peso da leveza introspectiva das páginas, cruzei com Karenin – uma cadela batizada com nome inspirado num romance de Tolstói. Imaginei Sabina, a irresistível amante de Tomas, e lembrei da música “Eduardo e Monica” da Legião Urbana. Percebi um autor indigesto e marcado pela mão pesada do comunismo soviético, um país (Checoslováquia) mergulhado numa profunda crise de identidade e, fundamentalmente, um povo fustigado pela – e com raiva da – ditadura imposta. Fechei o livro várias vezes. Tentei gostar de Kundera e das suas asserções, mas confesso: é uma coisa meio deprê. Descobri que o cara é complicado – muito mais complicado do que eu – que gosta de números, de dividir a sua obra de forma a (também) fazer dela um instrumento de análise para a numerologia; e que tentou escrever de forma simples sobre coisas complexamente bonitas, mas que se perdeu quando as transformou em coisas melancolicamente difíceis: como uma relação amorosa. VOZ ESQUIZOFRÊNICA – “Os personagens de meu romance são minhas próprias possibilidades que não foram realizadas. É o que me faz amá-los, todos, e ao mesmo tempo a todos temer. Uns e outros atravessaram uma fronteira que eles atravessaram (fronteira além da qual termina o meu eu). E é somente do outro lado que começa o mistério que o romance interroga. O romance não é uma confissão do autor, mas uma exploração do que é a vida humana na armadilha que se tornou o mundo. Mas basta. Voltemos a Tomas.” (Kundera: 1999:252). Mas o autor, independente das suas mais subjetivas colocações, parece demonstrar um estado de tédio sufocante que me atormentou a cada passagem de páginas. Tudo no livro me pareceu por demais incompleto, principalmente na voz esquizofrênica do narrador – e eu fui, dessa forma, descobrindo com mais cuidado, que não se tratava apenas da voz de uma personagem qualquer, até quando o Kundera acusa a imprensa de ser manipulada pelo Estado. A partir daí, enredo, foco narrativo, personagens, tempo, espaço, etc. tudo é descrito de maneira eufórica, cambaleante e confusa. Nada é o que parece ser. Até as crises de consciências de Tomas por trair Tereza com Sabina. Ou Sabina por trair Tomas com um tal de Franz – que surgiu na história de lugar algum. E o Franz, como força do destino, acaba traindo Sabina com uma estudante de óculos sem nome. Mas como disse o próprio autor: “Seu drama não era de peso, mas de leveza”. DIEGESE – Não quero com isso entrar num processo degenerativo da obra, na procura desesperada do ser biográfico, mas sim de uma persona ou sujeito ficcional que insurge no romance como uma voz que se desloca e ao mesmo tempo se prende às personagens e à diegese. Lá pela quinta parte do livro, Tomas perde o seu valioso emprego como cirurgião num hospital por causa de um artigo sobre Édipo de Sófocles publicado num jornaleco qualquer. Não entendi absolutamente nada nessa parte sobre o que o autor quis passar e o mais improvável acontece: de cirurgião renomado, Tomas acaba como limpador de janelas pelas ruas de Praga (com uma longa vara de lavar vidraças) e “consolo de senhoras desavisadas”, as quais ele chama de “mulheres-girafa” ou “mulheres-cegonha”. Argumentação horrível do senhor Kundera, para quem queria descrever um personagem que ficava excitado só de pensar na possibilidade de uma trepada. Num dos parágrafos encontramos uma sugestiva cena sobre um comportamento muito comum hoje em dia entre casais modernos – o ato de fazer “fio-terra” no parceiro: “Ele tinha a mão colocada sobre seu sexo úmido e escorregou o dedo até o ânus, seu lugar preferido em todas as mulheres. Ela o tinha extremamente protuberante, o que sugeria com nitidez a idéia do longo tubo digestivo que terminava ali com uma ligeira saliência. Apalpou o anel firme e sadio, o mais belo de todos os anéis, chamado esfíncter em linguagem médica, quando, de repente, sentiu os dedos da mulher-girafa colocarem-se no mesmo lugar de seu traseiro. Ela repetia todos os seus gestos com a precisão de um espelho”. PERSONAGENS ESMAGADOS – Mas se manter um relacionamento é uma coisa muito difícil nos dias de hoje, o autor classifica as pessoas em simples categorias – só faltou colocar códigos de barra. A primeira categoria é descrita como aquela que procura a aprovação do público. Na segunda estão os que não podem viver sem ser o foco de olhares familiares. Na terceira, muito comum, os que têm necessidade de viver sob o olhar do ser amado. E por fim, a mais rara, os que vivem sob o olhar imaginário, os sonhadores. Então, o autor mata os personagens principais esmagados sob um caminhão. Será que ele quis dizer que todos os sonhadores terminam da mesma forma? Mas, antes de sermos esquecidos, descreve Kundera, seremos transformados em kitsch (*pessoas de vidas simétricas transformadas em devaneios). No último capítulo, mais uma vez fugindo do enredo, Kundera descreve o início da loucura de Nietzsche que em 1889 vê um cocheiro espancando com um chicote o seu cavalo. Nietzsche abraça o pescoço do animal, e sob o olhar do cocheiro, explode em soluços. Kundera confessa ser esse Nietzsche que ele ama. Achei demasiadamente propício a explicação, como também muito bonita as cenas da morte de Karenin. O enredo novamente é centrado em Tomas e Tereza que, já haviam sido mortos pelo autor em algumas páginas anteriores, terminam a noite num bar dançando e filosofando sobre a vida em comum e sobre essa insustentável leveza de ser apenas um ser humano. P.S. Esse livro acabou virando um filme dirigido por Phillip Kaufman (que também dirigiu “Os Eleitos”), com Daniel Day-Lewis, a maravilhosa Juliette Binoche e Lena Olin no elenco e que ainda recebeu duas indicações ao Oscar. (“A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER” de Milan Kundera, Mestres da Literatura Contemporânea, romance, 315 págs. 1983 - Record)
* Texto originalmente publicado no jornal O Rebate em 24 de agosto de 2007. 8月3日 21. OS DEZ MANDAMENTOS PARA O SÉCULO XXI
Iniciei recentemente um debate pela comunidade LITERATURA CLANDESTINA (Orkut) para falar sobre Deus e religião. Acabei ficando muito surpreso com algumas respostas autoritárias de alguns. Descobri (mesmo não querendo) que é muito complicado abrir um diálogo com qualquer tema polêmico e que talvez venha desagradar aos mais puritanos, mesmo assim, temos a obrigação de fazê-lo para acabar com essa monopolização de informações e com essa mesquita de terror quando envolvemos questões de cunho religioso e/ou comum de todos. Porém, até hoje eu fico surpreso com pessoas que se dizem muito esclarecidas, pois são as primeiras a demonstrarem preconceitos burros. Às vezes não sei direito se algumas querem dizer: “não roubarás pai e mãe” ou “fornicarás nas festas” nos seus discursos fabricados, muitas vezes, em bancos universitários. E este é justamente o tema central do livro “Os 10 Mandamentos Para o Século XXI” do filósofo agnóstico, autor e jornalista Fernando Savater.
Nascido em 1947 em San Sebastián, Savater formou-se em Filosofia. Durante um tempo foi catedrático de Ética, mas atualmente leciona Filosofia na Universidade Complutense de Madri e milita na iniciativa cidadã “Basta Ya”. Considerado um dos pensadores mais destacados da Espanha, Savater já teve publicado cerca de 50 livros, entre suas numerosas obras salientam-se “Ética Para Amadores” (1991), traduzido para 18 línguas. Esse velhinho barbudo, com cara de Papai Noel e muito simpático é conhecido como o Sartre espanhol e já foi até comparado a Salman Rushdie (ainda vou tricotar comentários sobre os “Versos Satânicos” de Rushdie). Como escritor, recebeu em 1982 o Prêmio Nacional de Ensaio e o Prêmio Anagrama. Em 2000, ganhou o Prêmio Ortega y Gasset de jornalismo. Mas Savater também se destaca no cenário político e foi condecorado, também em 2000, com o Prêmio Fernando Abril Martorell, por sua contribuição para a defesa e a difusão da liberdade, da tolerância e dos direitos humanos e com o prêmio Sajarov de Direitos Humanos, concedido pelo parlamento europeu, por sua luta contra a onda de terror imposta pelo grupo independentista basco ETA. Infelizmente, toda essa visibilidade lhe rendeu, além das premiações, a condição de ter que andar somente acompanhado de escolta de seguranças. Nem por isso suas idéias deixaram de estar sempre marcadas por uma rebeldia reflexiva (coisa que eu sinto muita falta nos autores contemporâneos e nos meus colegas professores), pelo humor e pela fina ironia.
Porém, só o título do seu livro “Os 10 Mandamentos Para o Século XXI” bastaria para instigar qualquer pessoa inteligente a ler essa obra. Savater analisa com elegância e ironia os ultrapassadíssimos “Dez Mandamentos” divulgados por Moisés, os aproximado do ponto de vista do século XXI. Sem afastar da realidade e sem esquecer as questões que nos interessam esta obra percorre as Dez Leis de Yahvé (*Deus) uma a uma, desde o "AMARÁS A DEUS SOBRE TODAS AS COISAS" até ao "NÃO COBIÇARÁS OS BENS ALHEIOS"; da sua explicação histórica e bem humorada, passando pela ambígua proibição de roubar ou o dever de honrar os progenitores. Mas achei cômico o capítulo sobre “NÃO DESEJARÁS A MULHER DO PROXÍMO”, pois o autor diz ser uma coisa antiquada. Nessas indagações Savater, com o seu profundo sentido de humor e também com mordacidade, oferece ao leitor uma reinterpretação audaciosa, polêmica, moderna e universal dos principais tabus e preocupações humanas, traçando um rico painel da história da crença, da religião e da própria humanidade num dos códigos morais e sociais mais antigos do mundo.
Se servir de alguma coisa, volto a lembrar que sempre questionei a existência desse Deus “assassino”, “monopolizado” e “tirano” das igrejas. O certo é que, por trás de toda essa superficialidade com que lidamos com este tema em nossos dias, a presença desse Deus faz parte das assombrações da humanidade há séculos. Os judeus que fugiram do Egito, por exemplo, estavam sempre imaginando de que maneira podiam se esquivar das ordens que emanavam dos tais Dez Mandamentos. E o que andamos fazendo hoje? “Não faltam estudos sérios que põem em dúvida a própria existência de Moisés e a veracidade de fatos como o Êxodo do Egito. Outros dizem que não existiu um Jesus tal como chegou até os nossos dias, e sim que ele é a soma de situações criadas por diferentes homens chamados igualmente de Jesus (coisa que eu também acredito) – as quais foram fundidas numa única história para melhor compreensão do povo”, questiona Savater. E embora isso pareça muito paradoxal, neste caso a verdade histórica não tem importância, porque se trata da transmissão da suposta verdade divina à humanidade. E aquela história de aliança com Deus? Tratava-se de um Deus (piedoso?) que havia oferecido a um povo (escolhido?) um projeto em comum. Tudo isso baseado num acordo que os insignificantes mortais deveriam cumprir sem dar um pio, porque, do contrário, esse Deus ciumento e terrível lançaria as piores desgraças sobre eles. E isso é o que eu chamo de amar a sua criação!
O autor afirma ainda que a cultura constitua um ingrediente essencial de humanização e que neste sentido a filosofia - ou qualquer outro ato de entendimento - nos ajuda a conviver com as nossas insolúveis interrogações e aflições. Liberdade, por tanto, seria autocontrole, porém os “representantes” de Deus deram a conhecer aos seus seguidores fanáticos qual seria a moldura do funcionamento social e quais seriam também as conseqüências para quem ultrapassasse essas fronteiras. Eu chamo isso de liberdade condicional. E a “coisa” deu mesmo certo porque hoje em dia é muito difícil conversar sobre religião com evangélicos fanáticos ou com os católicos cada vez mais alienados por esse tal de Rat(o)zinger ou, até mesmo, em simples comunidade pelo Orkut.
Lembro de uma vez em que uma atendente de uma locadora de vídeo que freqüento (evangélica por sinal) me ignorou só porque eu disse que detestei “A Paixão de Cristo” de Mel Gibson e que era humanamente impossível Jesus ter sofrido uma carnificina como aquela mostrada no filme. Mas, mesmo não gostando muito, prefiro desligar o botão STOP de convivência, pois os que falam em seu nome são uma verdadeira dor de cabeça – prova disso são alguns comentários (sempre que eu toco nesse assunto) que teimam em infestar a minha caixa de mensagens, feitos por esses “caiapós” (*aqueles que parecem com macacos), sempre nos sugerindo e ordenando o que temos de fazer de acordo com o nível de poder deles. Savater explica que, para terem um funcionamento bem oleado, as sociedades modernas 'requerem eficientes virtudes' e deste modo os Dez Mandamentos, que estão solidamente inscritos no inconsciente coletivo, constituem sem dúvida o arquétipo de todas as funções de controle ideológico dos homens.
Agora, já pensou se o Brasil fosse governado por um regime de fanáticos islâmicos ou aliado a Bin Laden? O que dizer do Paquistão, país muçulmano e dono de seu próprio arsenal de armas nucleares – e tudo em nome de Deus. Para explanar o perigo que a alienação religiosa provoca, a exemplo do jihadismo islâmico representa para o Paquistão, nada melhor que o confronto em Lal Masjid, ou Mesquita Vermelha (para quem não conhece: acho melhor começar a assistir telejornais todos os dias), que terminou com uma centena de mortos, segundo a Globo (ou o dobro de vítimas, segundo a versão da Band) e tudo em nome de Deus. O resultado é que persiste a falta de uma estratégia confiável para vencer a guerra ideológica entre a civilização e o fundamentalismo islâmico. Isso tudo é de dar calafrios. E viva a intolerância religiosa!
E o que você tem a dizer sobre o documento divulgado pelo Vaticano, onde o papa intolerante Bento Rat(o)zinger reforça um aspecto da doutrina católica? O tal documento reafirma a Igreja Caótica como a “única Igreja de Cristo”. Como se ele próprio tivesse passado um e-mail, um fax ou talvez tenha interpelado junto a CNN exigindo a propagação da “nova ordem”. Esse Bento Rat(o)zinger dificulta o diálogo desde que tomou conta do trono de São Pedro, mas bancar as madalenas enganadas não passa de jogo de cena dos cristãos e não-católicos. Como o próprio nome da Igreja expressa como ela sempre se enxergou melhor do que todas as outras. A Igreja é Católica (palavra de origem grega que significa “universal”). Apostólica (fundada por Pedro e Paulo, herdeiros diretos da “verdade” de Jesus). E Romana (não há legitimidade cristão fora do âmbito papal). Mas pedante do que isso, só o Renan Calheiros e o ACM (agora morto). E depois vocês ainda vêem dizer que eu é que sou o autoritário. Me deixe, viu!
Em suma: “Os 10 Mandamentos Para o Século XXI” de Fernando Savater é um livro essencial para quem quer entender como funciona essa manipulação de mentes. Com introduções nos inícios dos capítulos em que se dirige diretamente ao próprio Deus, tratando-o por você e às vezes recriminando-o, e ajudado pelas opiniões de um rabino (Isaac Sacca) e de um padre católico (Ariel Alvarez), que fornecem o contraponto às mordazes e agudas observações de Savater. E Deus nos mandou amá-lo sobre todas as coisas. Aí eu me pergunto e lhe pergunto também: você precisa que o amem tanto assim? Mas pelo menos eu comprei este livro por R$ 10,00 no balaio das Lojas Americanas. (“OS 10 MANDAMENTOS PARA O SÉCULO XXI” de Fernando Savater, 225 págs. Rio de Janeiro, 2004 – Ediouro) 7月26日 CensuraTexto de Jabor sofre censura polÍticaPor Elenilson Nascimento
A imagem do Congresso Nacional, nestes últimos meses, congelou no espetáculo lamentável de degradação encenada pela comissão perfidamente chamada “de Ética”. Muitas foram as crises do Legislativo brasileiro, mas poucas com a característica tão marcante de levar junto a própria instituição para o fundo do poço. E, do lado de cá da miserabilidade comum a todos os brasileiros, eu desisti de acreditar nesses senhores parlamentares, aliás, nunca fui de acreditar nesse segundo mandato do Lulálá. Do caso do Renan Calheiros – suas contas mal explicadas, seus bois super-faturados, o recurso ao amigo lobista para acertar as contas (com dinheiro público) com a concubina com quem até teve uma filha – ao presidente Lula que nunca sabe de nada e que nunca viu nada, soma-se a isso tudo o fato de Brasília ter se tornado um verdadeiro antro de raposas velhas e de cobras criadas. Lula sempre tenta encobrir os crimes de sua quadrilha apelando para pretensos “crimes” de gestões anteriores, como barragem de CPIs, votos comprados, Caixa 2 sem provas e outros subterfúgios. Ele e os petistas se julgam donos de uma metaética, uma supramoral que os absolveria de tudo e de todos e, por isso mesmo, Lula se utiliza de omissão, mentiras e meias verdades para responder às acusações de mensalões e tudo de podre em seu governo. Para justificar a supressão e a passividade diante da Bolívia e do prejuízo de um bilhão e meio de dólares nas instalações da Petrobras, Lula chegou até a criticar a violência burra do Bush (mas quando a águia americana esteve aqui o Lula ficou com o rabinho entre as pernas) para se absolver na política de “companheirismo” com o Evo Morales. E os sanguessugas do penúltimo escândalo? Todos se safaram. Isso é o Brasil, onde acidente de avião vira estatística na imensa lista de coisas inacreditáveis que acontece nesse país do faz-de-conta. E, agora, tudo indica que tem cheiro de mais ditadura no ar. Comentário da jornalista Dora Kramer no Estadão: "A decisão do TSE que determinou a retirada do comentário de Arnaldo Jabor do site da CBN a pedido do presidente Lula até pode ter amparo na legislação eleitoral, mas fere o preceito constitucional da liberdade de imprensa e de expressão, configurando-se, portanto, um ato de censura". Em outro trecho: "Jabor faz parte de uma lista de profissionais tidos pelo presidente Lula como desafetos e, por isso, passíveis de retaliação à medida que se apresentem as oportunidades". Porém, uma consideração: a questão de concordar ou discordar do Jabor não faz parte desse meu intento neste comentário. Este não consiste em uma defesa gratuita do que foi dito pelo comentarista e cineasta. Independente de concordar, ou não, com o que ele diz, trata-se de defender o direito de ele poder dizer – que é o direito de todos, pelo menos na teoria. Não quero tratar da concordância ou da discordância, mas tão somente do princípio democrático que deve ser constitutivo de uma sociedade aberta, apesar de tudo. P.S. E antes que eu também seja retaliado, não deixem de ler, reler e passem o texto do Jabor adiante!
A VERDADE ESTÁ NA CARA, MAS NÃO SE IMPÕE Por Arnaldo Jabor
O que foi que nos aconteceu? No Brasil, estamos diante de acontecimentos inexplicáveis, ou melhor, "explicáveis" demais. Toda a verdade já foi descoberta, todos os crimes provados, todas as mentiras percebidas. Tudo já aconteceu e nada acontece. Os culpados estão catalogados, fichados, e nada rola. A verdade está na cara, mas a verdade não se impõe. Isto é uma situação inédita na História brasileira. Claro que a mentira sempre foi a base do sistema político, infiltrada no labirinto das oligarquias, claro que não esquecemos a supressão, a proibição da verdade durante a ditadura, mas nunca a verdade foi tão límpida à nossa frente e, no entanto, tão inútil, impotente, desfigurada. Os fatos reais: com a eleição de Lula, uma quadrilha se enfiou no governo e desviou bilhões de dinheiro público para tomar o Estado e ficar no poder 20 anos. Os culpados são todos conhecidos, tudo está decifrado, os cheques assinados, as contas no estrangeiro, os tapes, as provas irrefutáveis, mas o governo psicopata de Lula nega e ignora tudo. Questionado ou flagrado, o psicopata não se responsabiliza por suas ações. Sempre se acha inocente ou vítima do mundo, do qual tem de se vingar. O outro não existe para ele e não sente nem remorso nem vergonha do que faz. Mente compulsivamente, acreditando na própria mentira, para conseguir poder. Este governo é psicopata!!! Seus membros riem da verdade, viram-lhe as costas passam-lhe a mão nas nádegas. A verdade se encolhe, humilhada, num canto. E o pior é que o Lula, amparado em sua imagem de "povo", consegue transformar a Razão em vilã, as provas contra ele em acusações "falsas", sua condição de cúmplice e comandante em "vítima". E a população ignorante engole tudo. Como é possível isso? Simples: o Judiciário paralítico entoca todos os crimes na Fortaleza da lentidão e da impunidade. Só daqui a dois anos serão julgados os indiciados – nos comunica o STF. Os delitos são esquecidos, empacotados, prescrevem. A Lei protege os crimes e regulamenta a própria desmoralização. Jornalistas e formadores de opinião sentem-se inúteis, pois a indignação ficou supérflua. O que dizemos não se escreve, o que escrevemos não se finca, tudo quebra diante do poder da mentira desse governo. Sei que este é um artigo óbvio, repetitivo, inútil, mas tem de ser escrito... Está havendo uma desmoralização do pensamento. Deprimo-me: "Denunciar para quê, se indignar com quê? Fazer o quê?". A existência dessa estirpe de mentirosos está dissolvendo a nossa língua. Este neocinismo está a desmoralizar as palavras, os raciocínios. A língua portuguesa, os textos nos jornais, nos blogs, na TV, rádio, tudo fica ridículo diante da ditadura do lulo-petismo. A cada cassado perdoado, a cada negação do óbvio, a cada testemunha, muda, aumenta a sensação de que as idéias não correspondem mais aos fatos! Pior: que os fatos não são nada - só valem as versões, as manipulações. No último ano, tivemos um único momento de verdade, louca, operística, grotesca, mas maravilhosa, quando o Roberto Jefferson abriu a cortina do país e deixou-nos ver os intestinos de nossa política. Depois surgiram dois grandes documentos históricos: o relatório da CPI dos Correios e o parecer do procurador-geral da República. São verdades cristalinas, com sol a Pino. E, no entanto, chegam a ter um sabor quase de "gafe". Lulo-Petistas clamam: "Como é que a Procuradoria Geral, nomeada pelo Lula, tem o desplante de ser tão clara! Como que o Osmar Serraglio pode ser tão explícito, e como o Delcídio Amaral não mentiu em nome do PT? Como ousaram ser honestos?". Sempre que a verdade eclode, reagem. Quando um juiz condena rápido, é chamado de "exibicionista". Quando apareceu aquela grana toda no Maranhão (lembram, filhinhos?), a família Sarney reagiu ofendida com a falta de "finesse" do governo de FH, que não teve a delicadeza de avisar que a polícia estava chegando... Mas agora é diferente. As palavras estão sendo esvaziadas de sentido. Assim como o stalinismo apagava fotos, reescrevia textos para contestar seus crimes, o governo do Lula está criando uma língua nova, uma neo-língua empobrecedora da ciência política, uma língua esquemática, dualista, maniqueísta, nos preparando para o futuro político simplista que está se consolidando no horizonte. Toda a complexidade rica do país será transformada em uma massa de palavras de ordem, de preconceitos ideológicos movidos a dualismos e oposições, como tendem a fazer o populismo e o simplismo. Lula será eleito por uma oposição mecânica entre ricos e pobres, dividindo o país em "a favor" do povo e "contra", recauchutando significados que não dão mais conta da circularidade do mundo atual. Teremos o "sim" e o "não", teremos a depressão da razão de um lado e a psicopatia política de outro, teremos a volta da oposição Mundo x Brasil, nacional x internacional e um voluntarismo que legitima o governo de um Lula 2 e um Garotinho depois. Alguns otimistas dizem: "Não... este maremoto de mentiras nos dará uma fome de Verdades!". fonte: enviado por e-mail.
7月17日 20. "O PERFUME" de Patrick SüskindEu já tinha esse livro desde 2001, mas nunca tive curiosidade de fazer uma leitura cuidadosa pois sempre tinha outros livros na frente. O Perfume - A História de um Assassino (1985) foi considerado o livro da década de 80 na Alemanha. E só depois que alguém apareceu aqui em casa com o filme é que tive vontade de ler e acabei devorando (várias vezes) a obra desse alemão careca de 57 anos – com nome de comida japonesa – que atualmente vive na Alemanha, raramente dá entrevistas ou aparece em público e prefere levar uma vida isolada. E antes mesmo de abrir o livro, já me intrigava com seu título. Qual o rosto escondido por trás da máscara do protagonista? (ou seria melhor dizer antagonista?) Por que O Perfume como título de livro? Qual o significado desta alegoria toda? Segundo a lenda, até o Kurt Cobain era fã desse livro. Alguns críticos de música dizem que o falecido vocalista do Nirvana usou trechos desse livro de Patrick Süskind como inspiração, na época da composição do disco “In Utero” (1993), tanto que a música "Scentless Appretince" foi baseada nesse livro. O romance escrito por Süskind conta a história de Jean-Baptiste, um homem que possui um olfato extraordinariamente apurado mas que não possui cheiro próprio. O autor fez um trabalho memorável ao descrever a Paris do século XVIII que é o cenário que nasce Jean-Baptiste, abandonado por sua própria mãe em meio à tripas de peixes e de ratos. Quando acham seu corpo levam-no para um orfanato, aonde o menino cresce e todos que tem contato com ele acham-no repulsivo de uma forma estranha. O que não sabem é que o corpo de Jean-Baptiste não tem um aroma, uma distinção que é tão sutil que ninguém pode apontar diretamente. A falta de cheiro de Jean-Baptiste pode ser vista mais tarde como uma representante de sua falta de moral em um mundo no qual o amoral e o ético lutavam para achar um denominador comum. Durante toda a sua vida Jean-Baptiste teve vários acidentes, doenças e chagas, trabalhou como aprendiz de curtidor (que eu nem sabia o que era) e depois como aprendiz de perfumista na loja de Baldini e, graças às suas características, enquanto foi aprendiz de perfumista aprendeu várias técnicas para a criação de um perfume. Um dia, Jean-Baptiste encontra uma linda jovem de 12 anos, com um perfume totalmente diferente de todos os outros milhares de perfumes que ele guardava na memória, e acabará por matá-la por assidente, com as suas próprias mãos, de tanto desejar apoderar-se do seu odor. Mas, esta jovem é apenas uma das muitas jovens que o protagonista acaba por matar (acho que 26 no total), em busca do perfume perfeito. O autor é capaz de evocar diferentes emoções no leitor, desde simpatia, curiosidade, repulsa e ódio, que mostra um profundo autismo ao aprender cheiros diferentes à sua volta como a maioria das crianças aprende o alfabeto, ou contam números. Ele passa seus dias identificando e organizando os cheiros em seu mundo particular – parece um autista. Sua obsessão com cheiros é tanta e tão absoluta, que, então com 14 anos ele apresenta a si mesmo a um proeminente perfumista (Baldini) que o ensina a arte anciã de misturar óleos, dissecar e isolar aromas, e reduzir flores e ervas à seus óleos essenciais. A ação divide-se entre o mundo dos perfumes que serve para encobrir o mundo dos fedores, dos crimes e da hipocrisia que caracterizam a cidade de Paris no século XVIII – muito parecida com o que atualmente vivemos no Brasil. O livro, até pouco tempo considerado inadaptável para a linguagem cinematográfica, foi transformado em filme no ano passado (2006) pelo também alemão Tom Tykwer (de Corra, Lola, Corra). Segundo vários sites de cinema, o próprio Süskind negociou os direitos de filmagem com o produtor. O filme contou com um elenco de celebridades, tais como Dustin Hoffman e Alan Rickman, de belas mulheres, de uma bela fotografia e de um roteiro maravilhoso. Jean-Baptiste foi interpretado pelo desconhecido Ben Whishaw. O orçamento da produção extrapolou o valor de 50 milhões de euros, segundo informações contidas no site da Deustche Welle, mas valeu a pena: o filme ficou maravilhoso. O livro de Süskind é sui generis: meio horror, meio suspense, meio ficção histórica, meio erótico, meio repulsivo, meio romance, meio melancólico. Ao mesmo tempo que oferece muitos insights na mente do criminoso insano, também especula sobre o papel que o senso comum tem em nossas vidas. Quando os críticos e leitores sentiram pela primeira vez o aroma de O Perfume em 1985, ele prontamente tornou-se um best-seller internacional sendo traduzido para 37 línguas diferentes. Contudo, O Perfume é, sem dúvida, um romance muito estranho. Mais inquietante ainda é o fato de Jean-Baptiste ser desprovido de odor corporal, o que leva a sociedade a encará-lo com um misto de indiferença e horror. Curioso é a maneira como o autor utilizou para descrever alguns personagens: o tosco Druot, que cheira a esperma e suor; as mulheres plácidas, feitas de mel escuro; Madame Arnulfi, a viúva cheia de vitalidade; e as virgens mortas de membros carnudos, lisos e firmes. Todo este mundo irreal e de certa forma sobrenatural acaba por ser um pretexto que o autor utiliza engenhosamente a fim de explorar as paixões básicas que movem a humanidade: o erotismo, o poder, a necessidade de afirmação e a procura de si próprio, retratada aqui na busca do perfume ideal. E embora esta seja a história de um assassino, o próprio subtítulo o indica, os crimes acabam por diluir-se, como que desculpados pela pureza das intenções destituídas de qualquer tipo de moralidade. É por este motivo que o fim deixa um travo amargo, já que não se retiram conclusões e só a dúvida fica no ar. Apesar de muita coisa do livro ter sido dispensada na versão cinematográfica, O Perfume é um livro que deve ser degustado de mente aberta, deixando de lado preconceitos e juízos de valor, porque só assim se poderá apreender a beleza de caráter mórbido que se desprende das páginas e a crítica subjacente: o quanto somos frágeis e dependentes do nosso eu animal. Aquela parte onde o autor explica que o Senhor Richis desejava ardentemente a sua própria filha, Laure, a ruiva, que desejava “deitar-se junto a ela, sobre ela, dentro dela, com toda a sua concupiscência e todo o seu desejo. E ele ficava a suar, e o os membros tremiam, enquanto sufocava em si esse horrendo desejo e se curvava na direção dela, para acordá-la em um casto beijo paternal”, é de deixar os puritanos de cabelos em pé. No final da história, Jean-Baptiste volta a Paris e é partido aos bocados e comido por pessoas devido ao efeito do perfume que tinha derramado por todo o corpo: um final trágico para o protagonista. E qual o significado desta morte horrível? Pode-se ter a falsa impressão de que o autor queira afirmar que os idealistas são consumidos pelas massas ou pela podridão que o sistema produz. Mas as últimas linhas do texto nos faz pensar em algo diferente: “...seus corações estavam bem leves(...) . Pela primeira vez , haviam feito algo por amor” (“O PERFUME - A História de um Assassino” de Patrick Süskind, traduzido por Flávio R. Kothe, 255 pág. 1985 - Editora Record) 7月9日 EntrevistaYES, NÓS TEMOS JIRO TAKAHASHI!!! Jiro Takahashi é de Duartina, uma pequena cidade do interior de São Paulo, tem 58 anos, 3 filhas e 5 netos, é professor de Literatura e disciplinas correlatas, como Leitura e Produção de Textos, Estilística no Centro Universitário Ibero-Americano, no curso de Letras. É também tradutor e interprete desde 1979, com algumas interrupções por conta do trabalho editorial no Rio de Janeiro e em Londres. Estudou Direito e Letras, foi o primeiro editor da Editora Ática e atuou como gerente editorial da Ediouro, com passagens pelas editoras Abril, Nova Fronteira, Estação Liberdade e Editora do Brasil. Jiro – Oi, Elenilson, é uma questão complexa qualquer uma que envolva um trabalho no sentido de se criar um gosto de ler. O gosto de ler envolve os campos cognitivo, afetivo e uma série de fatores pessoais, familiares, econômicos e políticos, embora não pareça em termos imediatos para o menino diante da possibilidade ou não de pegar um livro. Porém, vou me ater mais a questões mais práticas para tentar ser mais sucinto. Em primeiro lugar, posso ser muito questionado, mas não acho que Dostoievski nem Nelson Rodrigues tenham escrito pensando nos leitores de dez ou onze anos de idade (nem para os da época deles, quando os meninos eram mais "homens mais novos" ou "homens pequenos", muito antes das modernas teorias psicológicas que passaram a entender melhor a criança). Em segundo lugar, uma série como a “Vaga-Lume” não pretendia concorrer nem com os clássicos brasileiros, que eram editados na “Série Bom Livro”. Os títulos da “Vaga-Lume”, como “O caso da borboleta Atíria” ou “A ilha perdida”, eram destinados à iniciação de leitura, para aqueles que, na época, provavelmente estariam pegando seus primeiros livros de forma autônoma. Na época, a literatura infantil propriamente dita não tinha a força de hoje, e era quase toda inserida dentro dos livros de leitura para o antigo primeiro grau (de 1ª a 4ª série). Embora eu veja com certa reserva, há uma teoria de incentivo à leitura – a "teoria do degrau" defendida entre nós pelo saudoso José Paulo Paes, grande editor e poeta – que prega que um menino começa lendo livros de estrutura narrativa mais simples e pouco a pouco passa a exigir sozinho outros de estrutura mais sofisticada. Segundo essa teoria, dificilmente um menino começaria direto a ler um Machado de Assis ou Flaubert. Além da estrutura narrativa, ainda há o problema dos referênciais e do repertório de vivência do leitor. Uma curiosidade popular. Outro dia, o Reinaldo Gianechini estava num dos programas matutinos e, perguntado como ele está conseguindo se preparar para ser ator, entender os textos e decorá-los, ele lembrou que normalmente ele lê com muita freqüência, coisa que adquiriu, segundo ele, graças à “Série Vaga-Lume”. Embora ele não seja o modelo de um grande ator, fiquei muito feliz com esse depoimento. Até porque no Brasil não é comum o leitor lembrar-se da editora e da série que está lendo, nem entre adultos. Então, quando vejo pessoas lembrarem-se de séries como a “Vaga-Lume”, “Para Gostar de Ler” e “Série Bom Livro”, fico pensando se elas não teriam cumprido, mesmo que não de forma brilhante (o que é complicadíssimo em um país que valoriza tão pouco a arte e a cultura), sua missão. E era para ela chegar às famílias e escolas a um preço nunca superior a da revista Veja e sempre com textos integrais, além de estimular o surgimento de novos escritores e o resgate de velhos escritores sem grande espaço na época. Naturalmente, um outro aspecto que “o gosto de ler” carrega consigo é que gosto varia demais e dificilmente haverá um consenso pacífico se era boa literatura ou não. Em História, talvez devamos esperar mais uns 40 ou 50 anos para um julgamento mais neutro e com dados sobre o crescimento do mercado de adultos nos próximos anos. Sucintamente (mas nem tanto, como gostaria), é mais ou menos isso o que penso, passados já muitos anos dessas edições (embora elas ainda continuem, com relativo sucesso para seus mais de 30 anos). Elenilson – Discordo nesse ponto com você. Pelo que vejo por aí, não acho que esses livros tenham formado legiões de leitores. A proporção contínua a mesma, no fim das contas, com a diferença que os não-leitores antigos, de antes desses "paradidáticos", pelo menos saíam da escola sabendo o que era o básico da boa literatura nacional. Se for para não ler, que seja o melhor, e não o que, com boa vontade, se pode chamar de descartável. Houve algum momento na história da educação nacional em que um grupo de “gênios” decidiu que tinham que facilitar as coisas para os alunos. Não acredito nisso. A melhor prova disso é que, há algum tempo, peguei um desses livrinhos de um aluno. À medida que ia lendo o livro, tinha a sensação de que o conhecia de algum lugar. Só perto de terminar é que lembrei que tinha lido aquele livro na oitava série. Esqueci completamente. Mas não esqueci meu Brás Cubas, defunto autor; ou da boneca Emília do sítio; ou da Dona Flor do Largo Dois de Julho. Jiro – Ainda sobre a questão de uma coleção formar ou não formar leitores é complicada porque ela não está resolvida. Se estivesse resolvida, teríamos a prova de qual foi o caminho que deu certo. Gosto muito de ver jovens espernearem quanto a esta questão, com argumentos sensíveis e idealistas do Elenilson. É preciso sempre termos professores, escritores, amigos, que pensem assim. Em país com mais dinheiro circulando no meio cultural, não ficaríamos restritos à escola e ao meio editorial como salvadores do problema da falta de leitura. Uma experiência como a “Big Read”, patrocinada pela BBC, na Inglaterra, nunca será aceita infelizmente por nenhum canal brasileiro de televisão. No meu comentário, apresentei apenas uma teoria, a “do degrau”, defendida pelos saudosos José Paulo Paes e meu antigo patrão e amigo, Anderson F. Dias, fundador da Ática. Preciso deixar claro que não compartilho dessa teoria. Há outras duas conhecidas, a “do filtro” e a “do hiato”. Aposto mais numa mescla dessas duas. Mas, feliz ou infelizmente, um país anda para frente ou para trás com as escolhas que vão se acertando entre os que mandam e os que aceitam ser mandados. Os que quiserem estar fora dessa relação devem lutar por uma outra forma de relacionamento econômico, político, social e cultural. Acho que muitos entendem o que estou querendo dizer. Quer resolver uma questão de felicidade humana no sentido de florescimento harmonioso de tudo o que o ser humano tem de potencial (solidariedade, conhecimento aplicado para uma vida melhor, em harmonia, em segurança, sem fome, sem sede (principalmente de cerveja, rs), com prazer cultural e social (e claro, sexual), tudo isso dentro de um sistema econômico e político em que nada disso conta? Eu não acredito. Mas não é por não acreditar que não possamos fazer algo para minorar os problemas. No meu ponto de vista, ler é uma prerrogativa básica de ser humano. Mesmo que leia um péssimo livro. No mínimo, você pode conversar com uma pessoa que leia, qualquer livro que seja. UM DOS PROBLEMAS MAIS SÉRIOS É QUE HÁ MUITOS EDUCADORES QUE NÃO LÊEM E ALGUNS CHEGAM A DETESTAR. Por mais teoria que tenham, não é possível passar algo que detestem para frente. Mesmo gostando, como é o meu caso, é tão difícil passar esse gosto, essa importância, para os amigos, para os alunos. Imagine então detestando... Enfim, uma história ainda sem final feliz. Elenilson – Uma vez você me sugeriu ler Saramago. Pois bem. Li o “Evangelho segundo J. C.”, “Ensaio sobre cegueira”, “Ensaio sobre lucidez”; e o último livro “O ano da morte de Ricardo Reis” está sendo muito enfadonho. Gosto da maneira que o Saramago escreve, mas detesto essa unanimidade por todos os lados com relação à sua escrita. Parece haver certa antipatia ideológica. Estou gostando muito mais do Lobo Antunes. Li outro dia na internet que os dois são inimigos declarados. O que você acha dessas diatribes mútuas inúteis? Para você quem seria o melhor escritor português, Saramago ou Lobo Antunes? Jiro – Sou apenas um leitor regular de Saramago e Lobo Antunes. O “Memorial do convento” ajudou de cara a fazer estourar o Saramago entre nós. “Os cus de Judas” assustaram de imediato os hipócritas de plantão entre nós. Demorou para o Lobo Antunes estourar aqui. Hoje são dois autores de grande público, considerando-se a língua em que escrevem. Naturalmente o Prêmio Nobel também pesa nessa "unanimidade" a que você se refere. USANDO GROSSEIRAMENTE A CATEGORIZAÇÃO PARCIAL DE EZRA POUND, TALVEZ SARAMAGO ESTEJA MAIS PRÓXIMO DA CATEGORIA DE "MESTRE" ENQUANTO LOBO ANTUNES, MAIS PRÓXIMO DA DE "INVENTOR". Por isso, difícil de confrontá-los. Vejo muito isso em discussão de colegas em torno do texto contido de Machado contra o texto aos borbotões de Alencar. Como não sou escritor, tenho a sorte "mineira" (e o azar, claro) de não ter de optar por um caminho, o de Saramago ou o de Lobo Antunes, nas minhas criações. Mas não deixa de ser curioso tentar fazer uma votação, mesmo na base do "gosto mais e pronto", entre os dois, para ver o que o povo pensa a respeito. EU, LEITOR MEDÍOCRE, VOU LENDO OS DOIS. Elenilson – Uma vez um estudante da cidade de São Paulo, me mandou um e-mail muito atípico: queria muito conversar comigo – quase desesperado e, por sugestão do próprio pai, advogado, tinha procurado e achado meu endereço pelo Orkut. Assunto era o meu livro de contos “Diálogos Inesperados...” (que até hoje você não me falou absolutamente nada), objeto de estudo em seu colégio. Havia, no entanto, um problema sério – que o tal rapaz foi logo confessando no terceiro e cruel parágrafo. Como ele não gostava de ler (“Pô, além de ser muito chato eu não tenho tempo”) e a prova sobre o dito livro era na próxima semana (“Ainda tenho que treinar para o campeonato de futebol da escola”), ele ainda me pede ajuda (“Meu pai me mata se eu tomar pau”). Então, ele, o coitado, precisava de um resuminho dos meus contos (“Não precisa ser muito grande”). Esse não é um caso isolado. Por exemplo, aprendi na escola que antes de P e B vem sempre um M; mas até hoje não aprendi a razão. (A quem interessar possa: P e B são bilabiais; a função do M é preparar a boca para esses dois fonemas – copiei da gramática). Assim como eu, milhões saem da escola até sabendo algumas coisas, mas geralmente com um entendimento muito superficial das coisas. A impressão que eu tenho é a de que os educadores esqueceram de uma coisa simples: é melhor ser analfabeto em Eça de Queiroz que analfabeto em “sei-lá-qual-o-seu-nome”. C O M E N T A. Jiro – Um comentário difícil de ser feito. Há vários modos de se conceber um analfabeto. Muitos que se julgam assim não o são. Acabam assumindo porque os outros, aparentemente mais sabidos, assim os rotulam. O analfabeto que se diz assim e que tentou ler Machado e acha que não entendeu talvez não deva ser considerado assim. Às vezes, por falta de repertório livresco, ou de sintonia com o texto, ou de concentração possível ou estímulo suficiente no momento, tudo isso pode ter interferido no modo como ele leu e, por não poder tecer comentários iguais aos que estão nos ensaios críticos, acaba achando que não entendeu nada. Confesso que, quando li “Memórias póstumas de B. Cubas” pela primeira vez, não entendi quase nada. Por ter gostado muito de Quincas Borba, mais tarde, já adulto, voltei às “Memórias” e achei interessante, rico e estimulante. Há o analfabeto que se julga assim por nem tentar ler o livro. Esse, que foge do desconhecido porque nem quer saber, não faz a humanidade caminhar, não importa para onde. Penso que seja o pior analfabeto. É claro que todos têm suas prioridades e podem selecionar o que quiserem. Não acho legal obrigar todo mundo a ler um autor que a gente acha o máximo. Agora, quanto à "comparação" de ser preferível um analfabeto de Eça a um analfabeto de "sei-lá-que-autor", não sei o que dizer. De um lado, é como um time que prefere perder da Seleção Brasileira a perder do Utumbiara (com todo respeito a este último time). Só que isso pode escamotear uma grande fragilidade do time, que talvez perderia até do time do bar da esquina, mas por ter perdido da Seleção Brasileira pode passar uma imagem de que de outros não perderia. Assim, ser analfabeto de Eça, tudo bem. Só dele ou de todos os escritores. Se ele for analfabeto de todos os escritores, qual a vantagem dessa estufada de peito? Enfim, não sei bem o que decidir sobre essa questão. Elenilson – Como foi fazer a adaptação em português de um clássico da literatura francesa, com o foi o caso do “Corcunda de Notre-Dame” de Victor Hugo? Jiro – Fiz duas adaptações de clássicos estrangeiros para o público juvenil: “Ivanhoé” e “Corcunda de Notre-Dame”. Considero que adaptação, em princípio e independente de questões sobre se é válido ou não "mexer" em Shakespeare ou Dante, é trabalho de autoria literária. No Brasil, escritores de peso fizeram adaptações dentro dessa perspectiva. Clarice Lispector, Paulo Mendes Campos, Carlos Heitor Cony e muitos outros, sem contar traduções-adaptações de Graciliano Ramos, Manuel Bandeira ou Drummond. Como não me considero um ficcionista, o que fiz nos dois casos foi mais ou menos o que os ingleses chamam de "abridged version", isto é, fiz uma tradução-resumo dos dois livros. Como foi isso? Li os dois livros no original, anotando os momentos que considerei significativos de caracterizações (de personagens, espaço e tempo) e de transformações (principalmente de ações, que vão fazendo os personagens se aproximarem ou se distanciarem de seus objetos de busca, transitórios ou permanentes). Vi muita adaptação desses dois livros em outras línguas e era realmente adaptação, como costumamos sentir quando assistimos a adaptações cinematográficas desses romances. Suprimem-se personagens, acrescentam-se outros, mudam-se alguns locais, etc. No meu caso, não criei nada de novo, e só suprimi algumas caracterizações e cenas porque o projeto era mesmo de se fazer um resumo (a editora já estabelece um número x de páginas no máximo). Desse modo, selecionados os excertos significativos dos originais, fiz a tradução. Houve necessidade de se redigir pequenos parágrafos-ponte para ligar um trecho de outro para que as descontinuidades dos trechos não criassem a ininteligibilidade. Foi uma experiência gratificante no sentido de lutar para produzir um texto que não procurasse descaracterizar o original, mas dentro de coerções pré-estabelecidas pela editora. Gostaria, é claro, de traduzir integralmente “Ivanhoé” (no caso do “Corcunda”, já há boas traduções no mercado). Mas, para isso, seria preciso que alguma editora se interessasse. Enfim, é isso. fonte: Comunidade Literatura Clandestina no Orkut. 19. "OS FILHOS DO GRAAL" de Peter Berling O que seria de fato o Santo Graal? Um cálice com vestígios do sangue de Jesus Cristo? Descendentes de Jesus, ou a pedra filosofal da alquimia? Mesmo quem duvida da sua existência não deixa de se deliciar com as inspirações que o mistério tem oferecido à literatura e ao cinema, que envolve, inclusive, o fascinante universo do Rei Arthur e seus cavaleiros. Pois é no embalo desta história que o escritor alemão Peter Berling ancora a sua obra "Os Filhos do Graal" (que a editora Rocco por um preço fora dos padrões, R$69,00). Neste caso, o centro do enredo (não-linear) são duas crianças que trazem em si uma descendência entendida como o verdadeiro Graal. Em torno dessas crianças digladiam-se protetores do mistério (templários, cavaleiros teutônicos e frades franciscanos) contra os terríveis aliados do Papa Inocêncio IV, manipulados pelo terrível Cardeal Cinza.
O livro traz ainda diversas informações sobre um dos períodos mais polêmicos do catolicismo, mas não tem o tom épico da obra de Eco. Seus personagens são conflituosos, sem nenhuma preocupação com a virtude. Serve bem mais para divertir e para quem já tem alguma noção sobre os templários, os catáros e outras figuras que tanto atormentaram a hierarquia da Igreja. É um belo livro, principalmente para professores de História que não gostam de ler nada. (“OS FILHOS DO GRAAL” de Peter Berling, romance, 1995, 305 págs. – Rocco).Como cenário da história está a Europa do século XIII e um dos ingredientes para esquentá-la é a briga pelo poder, que coloca de um lado o chefe da Igreja Católica e do outro o imperador Frederico II. Peter que já trabalhou em diversos filmes (mais de 70) como ator, produtor ou roterista, dentre eles o maravilhoso "O Nome da Rosa" de Umberto Eco. Como na obra de Eco, o protagonista de seu livro é um frade franciscano. Mas, diferente do frade criado por Eco, o de Berling, por diversas vezes, chega a ser um anti-herói, dado a tudo que não é nem um pouco santo. Comilão, amante da luxúria, é, na verdade, um personagem mais levado ao cômico. 7月7日 18. "A VIDA SEXUAL DOS ÍDOLOS DE HOLLYWOOD" de Nigel Cawthorne O glamour de Hollywood. Astros e estrelas. Anos que eu gostaria muito de ter vivenciado. Dinheiro, aliás, muito dinheiro. Poder, sexo, lágrimas, sedução, orgias. Tudo isso sempre fascinou as pessoas. E o que falar da vida sexual desses ídolos? Loucas paixões tórridas, casamentos badalados ou divórcios realizados às escondidas e às pressas, homossexualismo poucas vezes assumido (ou escancarados) e muitas vezes disfarçado, sexo em troca de contratos milionários. Nada disso era ficção: era gente em carne e osso.
P.S. Resenha anteriormente publicada no portal Literatura Clandestina, Boca de Brasa e no GLX, 19/01/06. O fascínio começa já na bilheteria, mas é só ao apagar das luzes que a verdadeira mágica acontece. Na mais completa escuridão, somos tragados pela grande tela branca e passamos a nos relacionar intimamente com pessoas até então desconhecidas, vivendo a fantasia de suas vidas como se fôssemos parte delas. Mas quem são essas pessoas? Fora das telas são o que parecem ser? Quanto do que vivem não é apenas uma tentativa de realizar os sonhos que concretizam nas telas? Muitos dos atores e atrizes se tornam tão encantados por suas imagens quanto nós, seus espectadores. De certa forma, são irreais até para si próprios, pois têm de aprender a difícil arte de equilibrar o que são com o que os espectadores acreditam que sejam. Prova disso, é o sucesso de programas como o Big Brother, onde milhões de pessoas diariamente “perdem tempo” assistindo das suas confortáveis poltronas as patéticas cenas dos até então desconhecidos, agora, “celebridades fabricadas”, meticulosamente jogadas na tela para dar pão e circo ao povo. No cinema, por sua vez, os artistas são cada vez mais exaltados pelo público, perseguidos pela imprensa, controlados severamente pelos estúdios. Desde o início, talvez as atividades mais interessantes dos atores e atrizes estivessem nos bastidores, fora do alcance dos curiosos. Onde poderiam exercer seu real papel. E é nesta tola ilusão que criamos nossos próprios personagens e os confundimos com pessoas reais, querendo crer que a ilusão é muito melhor do que a realidade. Nigel Cawthorne, ao escrever A Vida Sexual dos Ídolos de Hollywood, o primeiro livro de uma trilogia (tem ainda A Vida Sexual dos Papas e A Vida Sexual dos Ditadores) usou o termo ILUSÃO como a primeira palavra em seu livro, arrancando-nos de volta da grande tela branca e nos surpreendendo com a realidade de histórias nada românticas, num mundo em que a inocência se esgota nas telas. Sexo dá prazer, constrói fortunas e destrói reputações, Bill Clinton que o diga. Mas sexo também rende filmes, incendeia bastidores, revela estrelas e fornece combustível para escândalos envolvendo celebridades. É assim hoje, e foi muito mais nos áureos tempos de Hollywood, quando fazer o teste do sofá (como muitas vezes foi colocado no livro) era só o primeiro - e, às vezes, decisivo degrau para iniciar uma carreira cinematográfica. Esse expediente, no entanto, é o dado mais ameno que o jornalista inglês Cawthorne revela em "A Vida Sexual dos Ídolos de Hollywood". No livro, ele escancara sem pudores a intimidade de vários dos maiores ícones da história do cinema, e se põe tanto a demolir mitos como atestar outros. Veja só alguns exemplos: Os próprios donos dos estúdios estimulavam seus contratados a manterem romances na vida real, pois isso ajudava na divulgação dos filmes. Mais do que uma ode à indiscrição, o livro de Cawthorne prova que os astros também são feitos de carne e osso. Tão belos, ricos, famosos e, aparentemente, inatingíveis, eles se revelavam tão fracos quanto qualquer um quando o assunto era prazer e amor, se deixando levar pelas tentações e oportunidades. Ao mesmo tempo, a obra dá a dimensão da luxúria (adoro esse tema) que dominava (e ainda domina) Hollywood, onde ninguém era de ninguém. Um belo par de seios era o suficiente para arranjar um contrato com um estúdio, e fama era o melhor dos afrodisíacos. Ainda assim, era preciso manter as aparências. Para o público, aqueles seres na tela eram castos e perfeitos também fora dela. Mas a máscara caiu. Os ídolos estão nus - literalmente. 7月6日 17. " A CURIOSA HISTÓRIA DO EDITOR PARTIDO AO MEIO NA ERA DOS ROBÔS ESCRITORES" de José Luis Saorín “Era uma vez um rapaz que queria ser escritor. E quando teve idade para estudar na universidade, matriculou-se em filologia para aprender bem o ofício. Não demorou muito para descobrir que havia se equivocado. O que estava estudando não o ajudava a escrever e seus professores e colegas não pareciam a classe de pessoas que alguma vez tivesse feito isso. Terminou sua faculdade, e com boa nota, mas só porque seus pais haviam feito um grande esforço para lhe pagar os estudos e ele era um homem ou, melhor dizendo, um rapaz responsável”. Esse parágrafo tem tudo em comum comigo. E, para os que me conhecem pessoalmente, vão até achar que poderia ter sido eu mesmo quem o escreveu, mas, apesar de ter imensa semelhança, o autor dessa “curiosa” e familiar história é espanhol.
Esse curioso romance lançado em 2005 de José Luis Saorín sobre uma grande editora, a VMG, que tem como critério “matar o romance como também todos os gêneros literários, criando uma fábrica de livros escritos por ‘ghost-writers’, na qual os autores são somente pequenas engrenagens na cadeia de produção e onde não se fala mais em literatura e de bons leitores, mas somente em produtos e clientes” através de uns programas de EAC (Escrita Assistida por Computadores) – furor entre as editoras. Dramático isso? Pois é. E acho que estamos mesmo caminhando para esse fim, pois a supracitada categoria de escritores, pelo menos os de verdade, às vezes, são mesmo profetas do caos e meras peças de engrenagens. Confesso que tive, a princípio, muita dificuldade para entender o primeiro capítulo do livro de Saorín. Talvez pela expectativa de encontrar logo nas primeiras linhas uma crítica venenosa contra essas editoras cada vez mais mercenárias, mas o protagonista dessa história, o doído do Ramón, é muito parecido comigo – pelo menos com relação à sua personalidade e às maluquices (“A gente podia colocar uma balança nas livrarias e cada um pesava seu livro. Cada autor teria um preço por quilo de livro e a gente poderia oferecer várias opções de tipos de letras. Assim, quem quisesse economizar compraria livros com letra menor, que pesariam menos” – numa das suas muitas frases irônicas). Ramón é o tipo do cara que eu me identifico de cara – um ser atípico, com 25 anos (mas não sei bem se foi eu que não prestei atenção, pois no meio da história ele aparece com 42 anos – acho que foi um erro de continuidade) e logo no comecinho da trama aparece numa confusão “retada” com uma máquina de comprar bilhetes para uma viagem de metrô. E como a tal máquina não estava funcionando direito (não tinha troco), ele teve que comprar as moedas de uma desconhecida (a Laura – vilã ou mocinha da história? – não ficou muito claro) muito desconfiada por cinqüenta euros – uma idiotice, como o próprio personagem admitiu mais tarde. Em crise com o seu chefe de departamento, o ganancioso e mercenário Luvic (um cara bem mais comum do que o livro tenta mostrar (ele poderia trabalhar num dos colégios que eu já dei aulas) – que acha que “comer” secretárias é a melhor coisa dessa área e que para ser diretor de uma grande e respeitada editora as únicas coisas necessárias eram: saber ganhar dinheiro, comer bucetas e passar por cima dos outros). A história de Ramón é uma ácida, delirante e hilariante reflexão sobre algumas tendências da indústria cultural (“A maquinaria produz livros à custa dos cadáveres dos escritores”) e os tributos que a identidade pessoal deve pagar para sobreviver, no caso, até mudar de identidade para tentar fazer sucesso (pois Ramón usa o codinome de Nomar Wallace, autor de novelas água com açúcar – coisa muito comum nesses tempos de Big Bhother). O livro discute a literatura não como obra, mas como mercadoria descartável. “Os investimentos da indústria do lazer nos últimos cinqüenta anos tinham sido feitos no cinema, na televisão, na internet, nos videogames ou na música. Em qualquer campo menos nos livros”, disse Saorín num dos capítulos. Infelizmente as editoras preferem continuar com o “crème de la crème” das suas listinhas de autores consagrados do que investir em novas cabeças, o que no livro o autor tenta enfatizar com muita ironia: “Sempre tenho a mesma sensação quando noto que as rodas já não encostam no asfalto da pista”. E, justamente nesse meio que Ramón, solteirão desencanado, inventa, além do codinome, uma esposa imaginária de nome Marta para aparentar ser um cara sério e respeitável. O autor faz questão de deixar claro que os escritores são uma espécie em extinção e que, enquanto restar algum, as editoras vão continuar a utilizá-lo, embora sob condições próprias de produção, pois se não entrarem na maquinaria de produção e marketing, o mercado esquecerá deles (“Você viu os músicos de sempre? Estão tremendo diante da chegada de meninos desconhecidos que vendem dez vezes mais que eles. São produzidos ao ritmo de dez a cada seis meses. O autor solitário está morto”). Narrado em 1ª pessoa, cheio de frases irônicas e críticas ferozes à industria cultural, o livro é uma tentativa de alertar para o que muitos já sabem: para um livro ser considerado importante tem de ter passado pelo crivo de alguns mercenários capazes de tudo para tirar o proveito. Encontrei muitos erros de concordância no texto, como também palavras incompletas ou escritas errado (coisas da edição). Não gostei muito dos últimos capítulos – muito premeditado – mas aquela idéia de mais um pseudônimo utilizando o próprio nome do autor, achei fantástico. Também gostei das várias referências dentro da história (coisa que eu sempre usei e sempre fui criticado por causa disso): usar o final trágico de Romeu e Julieta de Shakespeare para simular a morte de Nomar Wallace, citar Júlio César e Brutus, Sansão e Dalila, as xícaras do Piu-Pui e do Pateta, Marlon Brando em O Poderoso Chefão, os bancos das Ilhas Cayman, Darth Vader de Guerras nas Estrelas e outros foi fantástico. Além, é claro, que eu não podia deixar de comentar: muito legal o nome da editora concorrente, editora Livros são Amores. Portanto, você tem que ler esse livro de José Luis Saorín. Uma excelente obra que mostra o quanto o trabalho de muitos autores é avaliado com os seus prós e os seus contras; e também a maneira como a indústria está matando e enterrando a si mesma, como “frangos que são vendidos aos pedaços” – nas palavras do autor. (A CURIOSA HISTÓRIA DO EDITOR PARTIDO AO MEIO NA ERA DOS ROBÔS ESCRITORES de José Luis Saorín, 242 págs. Rio de Janeiro, 2005 – Relume Dumara). 16. "STING - Uma Biografia" de Wensley Clarkson Eu sempre gostei desse cara azedo, independente de ele ser hoje um astro egocêntrico da música pop. Músicas como “Fragile”, “All This Time” e “Every Breath You Take” fazem parte de um período esquisito da minha adolescência (que não quero nem lembrar), mas o que mais me aproximou de “Sting – Uma Biografia” (adoro biografias) foi ter descoberto que o cantor também já foi um professor dedicado que se decepcionou com a educação, que seu interesse pela literatura foi iniciado com o livro “A Ilha do Tesouro”, que até hoje ele lê tudo o que lhe caia nas mãos, que ama a palavra escrita e que ainda relê suas passagens favoritas de livros. E o período difícil (sem dinheiro), o primeiro contrato com a gravadora Virgin (que o explorava, mas que segundo o próprio cantor era melhor do que nada) e os primeiros shows de jazz-funk em Londres fazem parte das histórias curiosas do livro.
Seguindo a antiga tradição dos músicos em começo de carreira, Sting também recorreu ao seguro-desemprego: “Foi uma experiência assustadora e humilhante. Eu odiava ir à repartição do governo pegar o dinheiro, pois todos agiam como se estivesse saindo dos seus próprios bolsos”, relembrou o cantor. Até parece que ele estava falando do serviço público do Brasil. Também me chamou atenção o fato do cantor ter confessado ter fumado maconha aos 12 anos, que o guitarrista do The Police, Andy Summers, transava com dezenas de fãs (numa época em que ninguém ouvia falar de Aids) e chegou até a aparecer num livro escrito por uma delas, que fez questão de descrever o pau do cara como “perfeito”. Encontrei uma observação de Sting sobre a bela canção “Roxanne”: “Não há nenhuma palavra sobre sexo ali. Não é uma canção suja. Era uma canção real, e eles não queriam tocar porque era sobre uma prostituta. Mas se você escrever uma canção idiota sobre uma trepada sem a palavra “trepada”, fará o maior sucesso. E isso é de deixar a gente deprimido” - hipocrisia do meio musical. E o pior é que ele iria ficar mesmo deprimido se ouvisse as atuais músicas (pagodes e axés) que o povo brasileiro costuma engolir goela abaixo. Gostei muito de saber da opinião do maravilhoso Elvis Costello com relação ao Sting: “Alguém deveria dar umas porradas e falar para ele parar de cantar com aquele sotaque ridículo de jamaicano”. Mas o livro, apesar de ter sido escritor por um fã, foi muito venenoso quando afirmou que Sting sempre achou que era o líder do Police tanto no palco como fora dele, que achava cool ser um cara promíscuo e que muita atenção lhe era dada pelos pequenos papéis em filme B somente por ele ser um astro do rock, enquanto atores de verdade eram constantemente ignorados. Em 81, quando o disco “Ghost In The Machine” foi lançado, Sting teve de fazer alguns esclarecimentos sobre o título tirado do livro do também famoso psicólogo Arthur Koesther, para quem o homem estava se tornando semelhante à máquina. O livro afirma que um dos motivos do termino do Police foi o fato de Sting achar que as composições feitas pelos companheiros de grupo eram uma porcaria e ainda achar que merecia uma parcela maior dos royalties. Bom mesmo foi saber da amizade do cantor com o inimitável Bob Geldof (que em 2005 organizou o Live 8 e que a mulher desse dava em cima de Sting descaradamente), o casamento com a atriz Trudie (que tem a cara da Annie Lennox), que no início do sucesso do Police algumas fãs estavam tão iludidas que imaginavam que o grupo era mesmo formado por policiais, que Sting era viciado em maconha e cocaína, de ter doado centenas de milhares de libras à caridade na tentativa de compensar a sua culpa por ser tão rico depois de ter visto o “Terceiro Mundo morrer pela tela da TV todas as noites”, sua preocupação com os problemas sociais e o drama das florestas tropicais. Hilário foi a parte em que é descrita uma tal casa do século XVII que Sting comprou por seiscentas mil libras, que possuía a fama de ser assombrada pelos fantasmas de uma mãe e seu filho. Os fantasmas apareciam por todas as partes da casa, no meio da noite, no canto do quarto, e deixava Sting aterrorizado. Ele disse ter acordado certa vez e olhado para o canto do quarto e viu a mulher com a criança. Então Trudie disse: “Sting, o que é aquilo no canto?” E Sting se viu obrigado a chamar um espiritualista. Um outro episódio muito interessante é o seu encontro com o famoso ladrão de trem Ronald Biggs, numa jogada para promover a turnê do cantor no Brasil (digo, Rio de Janeiro) no início dos anos 80. A idéia era fazer o Police “prender” o Biggs, numa brincadeira com o nome do conjunto. Lá em dezembro de 87, Sting foi ao Rio de Janeiro para um show; descobriu o badalado restaurante Satyrico; conheceu a “super-famosa” gerente de publicidade da Polygram, Gilda Matoso, que viria a se tornar amiga íntima do cantor; presenciou um incidente desagradável com o tecladista afro-americano do grupo que foi vítima de preconceito pela polícia carioca e, tempos depois, Sting foi persuadido a conhecer os índios caiapós da região do Xingu – todavia, antes mesmo de chegar à floresta amazônica, o cantor teve de vencer uma muralha burocrática só para conseguir permissão para a viagem, pois a destruição de sessenta acres a cada minuto não era o tipo de publicidade que as companhias madeireiras desejavam. E o mais surpreendente de tudo: o encontro com um homem com “contas cerimoniais, trajando calça Levis e que entre o queixo e o lábio inferior, havia um grande prato de madeira”, era o chefe índio Raoni. Com o tempo, na tribo, os índios deram um apelido a Sting de “Potima”, ou seja, “o fígado de um pequeno tatu”. Uma das muitas frases interessantes retiradas do livro a respeito dessa viagem de Sting a Amazônia é a seguinte: “O homem ocidental está regredindo; esquecemos nosso verdadeiro potencial. Os índios do Xingu podem nos fazer relembrar o que realmente somos”. Porém, reportagens aqui no Brasil afirmavam erroneamente que o cantor havia sido expulso da cidade pelos índios, mas a verdade era que diversos proprietários de terra estavam tão irritados com o envolvimento de Sting que decidiram matá-lo para colocar um ponto-final no suposto interesse mundial despertado sobre a floresta. Sting ficou muito assustado, pois sabia (como todo mundo sabe) que a polícia brasileira estava ali somente a serviço dos ricos proprietários de terras. E no meio desses boatos, prostitutas de todas as partes do país haviam viajado, sabendo da presença de Sting e sua equipe, para tentar fazer bons “negócios”. No início de 89, quando Sting retornou ao Brasil, pediu a amiga Gilda Martoso que ajudasse na organização da cobertura da imprensa para divulgar seus planos de salvar a floresta. Gilda foi em frente e conseguiu uma entrevista com a chaterrima revista Veja. Resultado: ela foi demitida da Polygram. Na época do lançamento da campanha para salvar a floresta o governo Sarney exigiu que um “espião” acompanhasse o grupo pelo mundo para relatar tudo que acontecesse. A amizade entre Sting e Raoni fez com que o cantor levasse o índio até a presença do papa, mas a visita foi um desastre, pois depois de esperarem horas no Vaticano, o papa deu a cada um deles apenas um rosário de plástico e desapareceu. Raoni ficou tão irritado que Sting teve que segurá-lo porque ele parecia disposto a bater do papa. No Japão, Raoni encontrou várias tietes, em especial duas delas que, tempos depois, ele as levou ao seu quarto onde queria ficar o tempo todo trancado. Uma coisa que não concordei muito no livro foi à afirmação de que “algumas pessoas no Brasil (na selva) viam Sting apenas como uma espécie de vale-refeição – uma maneira fácil de obter alguns dos luxos da vida que lhes haviam escapado”. É inacreditável a história de que Sting obrigava membros da sua equipe a assistirem o filme “Atração Fatal”, só para alertá-los das “suas obrigações como homens de família” (como se ele próprios não tivesse dados suas escapulidas), em outras palavras, que seriam demitidos se fossem pegos com mulheres “oferecidas” depois das apresentações. O livro é muito detalhista ao descrever os boatos de fãs enlouquecidas querendo dormir com Sting ou querendo seqüestrar seus filhos para chamarem atenção; a antológica briga com o Rod Stewart; a história de que o cantor foi roubado pelo próprio contador – que desviava recursos para pagar seus próprios impostos e a surpreendente versão de que a esposa de Stig, Trudie, realizou um documentário sobre os travestis cariocas, chamado “Rapazes do Brasil”, e que durante as filmagens havia “adotado” uma menina de rua que a seguia por toda parte. Uma coisa ficou muito clara: “Sting tinha plena consciência de que muitas críticas que lhe eram desferidas durante a campanha vinham de pessoas que pareciam querer que a sua luta em favor da floresta fracassasse”. Nesse período, espalhou-se um boato de que o cantor morrera de overdose. Uma coisa muito legal: a amizade dele com Bob Geldof (apesar das brigas) era algo muito raro no instável mundo dos superstars do rock e o seu envolvimento o polêmico grupo ramificado da seita do Santo Daime. Em suma, como diria o próprio Sting: “Sou uma pessoa normal. Só uma pessoa. Eu cago, eu bebo, eu trepo, eu respiro”. Curiosidades: uma cena do filme “A Grande Farsa do Rock And Roll” dos Sex Pistols em que Sting aparece beijando Paul Cook (Sex Pistols) na boca foi cortada, pois apesar de toda a suposta “liberdade” sexual no final dos anos 70, um beijo entre dois homens ainda era algo muito ousado. E a música “Every Breath You Take” (Cada Vez Que Você Respira) foi composta por Sting na casa de Ian Fleming, o romancista criador do James Bond, na Jamaica. P.S. Ouça o maravilhoso CD “Brand New Day” de 1999. (“STING – UMA BIOGRAFIA” de Wensley Clarkson, biografia, 304 págs. 1997 - Ed. Ática). 15. "O GARÇON B" de Alma de Assis
Eu adoro esses livrinhos perversos. Adoro essas histórias que exalam cheiro de sexo, personagens problemáticos e uma estrutura paranóica – literalmente falando. Mas esse “diário verídico de um amor sadomasoquista” (subtítulo) é, na verdade, um estudo de psicologia da alma feminina muito melhor do que muitos livros acadêmicos. Não gosto muito dessas mulheres que querem morrer por amor, na esperança de conquistar seus homens por meio do seu próprio sofrimento. Acho esse tipo de coisa muito clichê, mas vamos à história. A autora-personagem Alma resolve contar a sua história de “amor” sadomasoquista com um tal garçom B que trabalha no restaurante Dom G. Um relacionamento cheio de rancor, frustração e pancadaria. Sinceramente não acredito nessas histórias de “amores platônicos” recheadas de sexo e porradas, mas Alma foi corajosa em relatar o seu caso. Tem um tal de dr. K (psicanalista) que é hilário, tem a Alma dançando com dois caras ao som do Tim Maia, tem uns discursos do tipo: “quer meu pau?, gosta de chupar?, senta aqui, putinha vagabunda” e as surras deprimentes que o tal B dava em Alma. A personagem, contudo, muitas vezes se faz de vítima, mas o leitor pode analisar bem esse caso – vítima ou não, a sua história é triste e muito comum nas grandes cidades. Algumas partes do livro são muito cansativas: as várias cartas de amor que nunca foram entregues, os “casos” frustrados com dois caras (Senhor O e GS) que ela encontrou em anúncios de revistas pornográficas, os personagens terem sido apresentados por letras e as idas e vindas à delegacia. P.S. Uma coisa curiosa: Alma responde aos anúncios de revistas pornográficas com o pseudônimo de Florbela, em homenagem a poetisa portuguesa Florbela Espanca. No mais, o livro é interessante, vale a pena pela curiosidade desse meio. (“O GARÇOM B” de Alma de Assis, romance, 156 págs. 1998 - Ed. Rosa dos Tempos). 7月4日 14. "MAL SECRETO - INVEJA" de Zuenir Ventura
Se eu fosse levar em conta todas as observações indigestas desse livro, provavelmente vão me colocar na lista dos piores invejosos, pois achei o livro um porre. Essa coisa de “inveja boa”, descrita no livro, não existe nem aqui nem na China, mas segundo o próprio Ventura: “de boas vivências o inferno da literatura anda cheio”. Classificado como um livro sobre o mais brasileiro dos pecados, mas com uma narrativa nada envolvente (típica de estudante universitário preste a entregar uma monografia), acompanhamos o autor em sua “árdua missão” - a de revelar algumas facetas desse pecado inconfessável, a inveja. Nesta trajetória cercada de revelações pessoais, o autor compartilha com o leitor todo o making of desse livro. De um bate-pernas por dezenas de livrarias de Paris, por terreiros de umbanda e candomblé, para a compra de uma publicação rara sobre o tema aos bastidores de uma pesquisa de opinião e uma série de entrevistas e visitas a consultórios de psicanalistas e igrejas, somos convidados a participar de um inusitado jogo com ingredientes de um bom filme de suspense. Um emaranhado de informações que me deixou um pouco zonzo. Mas como disse o próprio autor no livro: "O ódio espuma. A preguiça se derrama. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho brilha. Só a inveja se esconde", e acho que me encaixei numa frase: “Desconfie de quem é sempre do contra, os muitos críticos, os intolerantes, os antitudo. No fundo, não passam de impotentes invejosos”. E nesse vai e vem desse "Mal Secreto", primeiro volume da coleção “Plenos Pecados”, Zuenir esbarra em histórias e relatos sobre de amor, medo e morte. E de repente somos apresentados a Kátia, uma jovem perturbadora, de olhos verdes fumegantes, sedutora e voluptuosa que o autor conhece num terreiro de umbanda da Baixada Fluminense. Tem uma outra frase de lascar: “Em um mundo igualitário, o sucesso do outro se torna insuportável. Por isso os intelectuais desmerecem Paulo Coelho” – como se todo mundo que não gosta do Coelho fosse também um intelectual. E então, diversas vezes senti o vazio, “como Adão sentiu sua nudez” (tirei isso do livro). No final, cabe ao leitor abandonar sua posição de um simples observador - que se deixa levar pelos acontecimentos - e assumir o papel de investigador, crítico, elucidando o mistério. E talvez perceba que também é um invejoso. No mais, sinceramente, o livro de Zuenir é realmente “um prato indigesto”. ("MAL SECRETO – INVEJA" de Zuenir Ventura, romance, 264 págs. 1998 - Ed. Objetiva). 13. "OS CANIBAIS ESTÃO NA SALA DE JANTAR" de Arnaldo Jabor
Sinceramente, sempre achei o Jabor um pé do saco. Um cara elitista que gosta de falar mal de coisas que ele não conhece, principalmente, sobre pobres. Filmes como “Eu Te Amo” e “Eu Sei Que Vou Te Amar” não passam de uma compilação dos seus desejos sexuais frustrados. Porém, em “Os canibais...”, muito melhor do que “Sanduíche da realidade”, o autor, comentarista, pinguço e cineasta carioca aborda com uma linguagem peculiar, muito diferente da que vem utilizando nos comentários “encomendados” para a Globo. Os artigos reunidos nesse livro foram anteriormente publicados no jornal Folha de S. Paulo e são testemunhos de ceticismo, ironia e dor. Dor de ser perseguido pelo Brasil, por uma idéia remota de Brasil, pelo sentimento pungente de ser brasileiro. Jabor descreve os “jovens louros e lindos que já não têm a ingenuidade alienada dos anos 60”, um “encontro” surreal com o Oswald de Andrade em plena Semana de Arte Moderna, fala dos travestis no Rio de Janeiro que não querem ser mulheres, da angustia do João Cabral e da visão errônea que antes o Brasil era melhor. Se numa parte ele descreve (cena a cena) a morte de três assaltantes na cidade de Matupá que foram baleados e queimados vivos pelos próprios moradores, noutra ele fala sobre Glauber e o seu Cinema Novo. E ainda discorre sobre Nelson Rodrigues, sobre o problema da literatura brasileira, sobre Rimbaud, sobre crise, sobre riqueza e pobreza, sobre a descoberta de muitos países dentro do Brasil, sobre filmes pornôs (massa!!!), sobre pênis-afro e pussies-afro (bucetas), sobre seca no Nordeste, sobre o filho da puta do Collor (“nosso presidente mais galã que se cercou de feios”), sobre Medici e Geisel, sobre a morte do PC, sobre sórdidas surubas em Brasília, sobre o Roberto Marinho, sobre impeachment, sobre o governo militar, sobre a desgraça que é a televisão, sobre viados (ele adora falar de viados), sobre o quadro “As meninas” de Velázquez, sobre Fidel, sobre medo da miséria, sobre camisinha em tempo de Aids, sobre os intelectualóides e a governabilidade das esterilizações obrigatórias, sobre a morte dos 111 presos de Carandiru (GOSTEI MUITO DO TEXTO) e sobre políticos que não saem nem f... do poder. A última crônica é muito interessante: um diálogo com o próprio Nelson Rodrigues. Em suma: “Os canibais...” é um bom livro, mas eu esperava muito mais de um cara que escreveu isso tudo do que aquela marionete com discurso pronto na tela da Globo. (“OS CANIBAIS ESTÃO NA SALA DE JANTAR” de Arnaldo Jabor, crônica, 224 págs. 1993 - Ed. Siciliano). |
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